O debate sobre a crise hídrica global ganhou novos contornos após o relatório Falência Hídrica Global, publicado pela Universidade das Nações Unidas. O documento alerta que a degradação da qualidade da água por contaminantes químicos e resíduos industriais compromete o abastecimento global de forma tão severa quanto a seca física dos reservatórios. Diante deste cenário, setores historicamente menos cobrados pela opinião pública, como a indústria de construção náutica, começam a reformular seus processos produtivos.
Embora o setor não lidere os índices de emissões de gases estufa, o impacto em ecossistemas aquáticos é expressivo. Estudos recentes da Chalmers University of Technology, divulgados na revista Marine Pollution Bulletin, apontam que tintas anti-incrustantes tradicionais liberam metais como cobre e zinco continuamente. Essas substâncias se acumulam em áreas costeiras e portuárias, alterando comunidades biológicas. Além disso, a degradação de materiais e adesivos utilizados nos cascos contribui para a dispersão de resíduos ao longo dos anos.
Mudança estrutural e substituição de insumos
A resposta do setor industrial tem focado na revisão do ciclo de vida das embarcações e na troca de componentes poluentes. Uma das alternativas aplicadas na fabricação de barcos é a substituição do isopor (poliestireno expandido) por garrafas PET pós-consumo na estrutura interna de flutuação. Essa troca evita o esfarelamento do isopor — que gera microplásticos de difícil remoção — e retira cerca de três toneladas de plástico do meio ambiente anualmente por planta fabril adaptada.
“Existe uma mudança em curso na indústria para reduzir o impacto ao longo de todo o ciclo de vida das embarcações. Isso envolve a adoção de tecnologias menos agressivas ao meio ambiente, a incorporação de materiais reaproveitados na produção e, principalmente, o aumento da durabilidade dos produtos, o que diminui a necessidade de substituição e a geração de resíduos ao longo do tempo”, afirma Raquel Oliveira, CEO da Fluvimar, empresa brasileira de embarcações pioneira no uso de garrafas PET como sistema de flutuação dos barcos, uma solução sustentável que já faz parte da rotina da empresa há mais de duas décadas.
No caso da Fluvimar, isso passa por decisões técnicas, como a substituição de adesivos por pintura. Segundo a empresa, enquanto os adesivos tendem a se deteriorar e liberar resíduos com o tempo, a pintura apresenta maior estabilidade.
Outra frente está dentro da fábrica. Por lá, o processo de pintura utiliza estufas com sistemas de filtragem que impedem a dispersão de partículas no ambiente, cujo objetivo é conter o resíduo antes que ele se torne um problema externo.
A eficiência também entra como variável ambiental. Uma nova estufa de secagem reduziu o tempo de produção de 24 horas para cerca de 60 minutos. O ganho não é apenas operacional: “menos tempo de processo significa menos consumo de recursos e maior eficiência energética”, destaca.
Outra mudança técnica ocorre no acabamento dos cascos. A eliminação de adesivos decorativos e estruturais, que se deterioram rapidamente sob a ação do sol e da água, por pinturas de alta estabilidade reduz a soltura de fragmentos químicos no mar e em rios.
Eficiência e contenção dentro das fábricas
Os ajustes também se estendem às linhas de montagem para evitar que os poluentes cheguem aos corpos d’água adjacentes:
- Sistemas de exaustão: Instalação de estufas de pintura equipadas com filtros de alta eficiência que retêm partículas e compostos voláteis antes da dispersão atmosférica.
- Otimização energética: Implementação de novas tecnologias de secagem que reduzem o tempo de cura dos materiais de 24 horas para cerca de 60 minutos, diminuindo o consumo de energia da fábrica.
- Aumento da durabilidade: Desenvolvimento de projetos focados na vida útil prolongada dos cascos, reduzindo o volume de descarte de embarcações obsoletas.
O avanço dessas práticas indica que a sobrevivência comercial do setor náutico dependerá diretamente da capacidade de produzir sem pressionar os recursos hídricos, transformando a conformidade ambiental em requisito operacional básico.
