Na manhã da última sexta-feira (31), o presidente do Sebrae, Rodrigo Soares, e o diretor-superintendente do Sebrae-SP, Nelson Hervey Costa, visitaram a Fábrica de Cultura de São Bernardo do Campo, uma das 16 unidades que a rede mantém na Grande São Paulo. Ali, jovens de baixa renda passam por oficinas de formação cultural que, segundo a Organização Social Catavento — responsável pela gestão do equipamento —, atendem cerca de 150 mil pessoas por ano só naquela unidade. A visita marcou a aproximação formal entre esse equipamento público e o Crie Sebrae, o mais recente programa da entidade voltado a um problema que atravessa a economia criativa brasileira: transformar talento artístico em cultura empreendedora e negócio sustentável, num setor em que a maioria de seus profissionais nunca se pensou como empreendedora.
O problema que o Sebrae diz ter identificado
A tese por trás do Crie Sebrae, lançado pelo Sebrae-SP com apoio do Sebrae Nacional, é relativamente simples de enunciar e mais difícil de resolver: artistas, músicos, estilistas, ilustradores e desenvolvedores de games raramente se reconhecem como empreendedores — mesmo vivendo, na prática, da própria produção. O caso da música ilustra o problema em escala. Segundo dados citados pela entidade, quase metade do mercado musical brasileiro é hoje formada por artistas independentes, o que empurra o profissional da música autoral para um papel que o Sebrae chama de “artista-gestor”: alguém que acumula, sozinho, criação, produção, marketing e administração financeira — funções que, em qualquer outro setor da economia, estariam divididas entre departamentos ou profissionais diferentes.
É essa lacuna que o Polo de Referência em Economia Criativa busca preencher, com mentorias individuais, cursos, orientações coletivas, consultorias e fóruns voltados também a gestores públicos — estes últimos pensados para ajudar a destravar a implementação de políticas de incentivo já existentes, como as leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc. “O Polo de Economia Criativa veio contribuir para a realização dos sonhos desses empreendedores”, resume Rodrigo Soares, que soma ao discurso um argumento de peso econômico: a economia criativa responde por quase 4% do PIB brasileiro, segundo a entidade.
Números que ainda pedem verificação externa
Lançado com foco inicial em audiovisual, moda e games, o programa soma, segundo dados divulgados pelo próprio Sebrae, mais de 5 mil empreendedores atendidos, mais de 250 micro e pequenas empresas em ações de internacionalização e um impacto estimado em mais de R$ 60 milhões em potencial de negócios gerados entre 2024 e 2025 — todos números que, por ora, refletem apenas o balanço interno da própria instituição que os divulga.
Por trás dessas estatísticas há histórias individuais como a do desenvolvedor de games Antônio Willian Barros Lima, que teve, por meio do programa, a oportunidade de participar como expositor e palestrante da Gamescom, principal evento da indústria mundial de jogos eletrônicos. “O Brasil tem grandes talentos na produção de jogos. E o Sebrae me deu a oportunidade de participar de eventos do setor”, relata. É o tipo de caso que a instituição usa para ilustrar o que os grandes números, sozinhos, não mostram: o acesso a mercados e vitrines que profissionais autônomos da economia criativa raramente conseguem sozinhos.
A ponte com quem já está na ponta
A parceria com as Fábricas de Cultura amplia o alcance do Crie Sebrae para um público mais jovem e de menor renda, que passa primeiro pela formação cultural básica antes mesmo de pensar em empreender. Para Aline Canciani, diretora de formação da OS Catavento, o objetivo desse primeiro contato é de longo prazo: “A ideia é que os jovens saiam das oficinas com a intenção de estudar e tenham futuro na área da cultura.” Já Nelson Hervey Costa vê no modelo paulista um potencial de escala nacional: “É uma política pública que pode ser replicada em todo o Brasil, ajudando aqueles que mais precisam.”
A rede soma hoje 16 unidades — dez na capital paulista e seis em municípios da região metropolitana e da Baixada Santista — cada uma funcionando como um equipamento público de acesso gratuito à formação cultural e, agora, também como porta de entrada para um programa que aposta que a solução para a precariedade crônica de boa parte da economia criativa brasileira não é apenas mais recurso, mas mais formação em gestão. Resta saber se essa aposta se sustenta na prática de quem, no fim das contas, ainda vai ter de dividir o tempo entre criar e sobreviver da própria criação.
Com informações da Agência Sebrae
