A preocupação com o colapso ambiental consolidou-se em definitivo como uma das maiores demandas do eleitorado nacional. Uma pesquisa inédita da Ipsos, encomendada pelo Observatório do Clima e divulgada nesta quinta-feira (17), aponta que 91% dos brasileiros consideram importante que os candidatos apresentem propostas para enfrentar as mudanças climáticas. Desse total, 62% classificam o tema como “muito importante”, enviando um recado nítido aos comitês partidários que disputam o Executivo e o Legislativo nas eleições de outubro.
O levantamento, intitulado “Clima e meio ambiente na percepção dos brasileiros”, ouviu 1.800 pessoas com 18 anos ou mais em todas as cinco regiões do país. Os dados revelam que o eleitor conecta diretamente o voto à urgência climática. O levantamento expõe o descompasso entre o desejo da população por políticas públicas e os planos de governo atualmente apresentados.
Eventos extremos alteram o cotidiano e moldam opiniões
O avanço de tragédias climáticas no território nacional — de secas históricas a enchentes severas — mudou o nível de conscientização pública. A pesquisa aponta estatísticas contundentes sobre a percepção da população:
- 87% dos entrevistados concordam que o colapso climático está provocando secas, chuvas intensas e ondas de calor recordes no Brasil.
- 85% das pessoas sentem que as mudanças climáticas afetam diretamente o seu cotidiano e a sua economia doméstica.
- 79% defendem que o combate à crise ambiental deve ser priorizado pelos governantes, mesmo quando isso implicar em custos econômicos imediatos.
- 76% ainda mantêm o otimismo, acreditando que há tempo para reverter os piores cenários se medidas drásticas forem adotadas imediatamente.
Para Marcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima, há um forte hiato na campanha eleitoral de 2026. Ele adverte que a maioria dos planos dos presidenciáveis permanece fraca, superficial ou inexistente diante da gravidade da emergência.
Descarte de lixo
Embora o clima lidere as preocupações ambientais (35%), seguido pela gestão de resíduos e lixo (21%) e poluição do ar (15%), a pesquisa diagnosticou um desconhecimento generalizado sobre as engrenagens da poluição nacional.
O estudo dedicou um bloco específico ao gás metano, poluente 28 vezes mais potente que o CO2 em um intervalo de um século. Pelo menos 64% dos brasileiros acreditam erroneamente que os lixões, aterros sanitários e a queima de combustíveis fósseis são os grandes vilões do metano. No entanto, a ciência aponta que, no modelo econômico do Brasil, a agropecuária (especialmente a pecuária bovina) é a principal fonte de emissão desse gás.
Suely Araújo, coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima, ressalta que o principal desafio histórico desta eleição é fazer com que a preocupação popular se transforme em votos conscientes. Para a especialista, o momento de crise climática aguda exige que o eleitor expulse negacionistas — declarados ou disfarçados — tanto do Palácio do Planalto e governos estaduais quanto das cadeiras do Congresso e assembleias legislativas.
