“A arte é algo que ensina os imaginários. Um artista tem como função criar possibilidades de futuro, de imaginário. Quando isso é feito, compartilha-se com o público possibilidades mais críticas e criativas de uso da tecnologia. Isso tem um papel político.” É assim que a professora Heloisa Espada, do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP, resume a ideia e o papel da exposição Antagonistas: Resistências Algorítmicas, em cartaz no MAC até 22 de fevereiro de 2026. Heloisa é curadora da mostra, ao lado dos artistas Bruno Moreschi e Gabriel Pereira e o professor André Mintz, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ao todo, estão expostas 30 obras, sendo que mais da metade delas pertencem ao acervo do museu. Em comum entre elas está a criticidade e a criatividade com que a arte vem sendo utilizada há décadas para questionar a tecnologia e se utilizar dela.
Destaques
Dentre as obras presentes na exposição, algumas ganham destaque pelo seu ineditismo. Numa entrevista concedida ao Jornal da USP, tanto Heloisa Espada como Bruno Moreschi dão ênfase a M3x3, produção realizada pela artista Analívia Cordeiro no início dos anos 1970. A artista, que também é bailarina e cenógrafa, utilizou seus conhecimentos para compor uma coreografia para bailarinas por intermédio de um programa de computador. “Ela cria um sistema de notações de movimentos, quase mecânicos, e faz um desenho com isso. Cada notação, ou orientação de movimento, foi transformada num código binário e inserida num computador”, explica Heloisa. Apesar de toda a automatização por trás, ela ressalta que, “por mais que os movimentos sejam programados, há espaço para a criação das bailarinas, para o improviso entre um movimento e outro. Existe uma aliança entre ser humano e máquina”.

Próxima da obra de Analívia está a de seu pai, Waldemar Cordeiro, com Derivadas de uma Imagem, que se utiliza de uma propaganda do dia dos namorados para compor uma imagem a partir de pequenas letras de códigos. Existem várias versões da obra, sendo que a que está exposta no MAC foi doada por Giorgio Moscati, engenheiro e programador que trabalhou ao lado de Cordeiro na impressão. Moreschi aponta para a importância do fator colaborativo na produção artística, que muitas vezes é deixado de lado: “O artista geralmente não domina técnicas de programação, de computação avançada. Então ele sempre tem que trabalhar com alguém. Isso mostra que a arte não é uma produção sozinha por si só”.
Ele destaca, também, outra obra de Waldemar Cordeiro: O Beijo, de 1967. Trata-se de uma máquina que apresenta a boca da atriz francesa Brigitte Bardot por meio de pequenos quadrados. “E, quando esse trabalho funciona, esses quadradinhos se abrem e você tem a impressão de que a boca está se abrindo. Só que, diferente de você ver a garganta de uma pessoa, você vê a parte interna da máquina”, explica. Devido à sensibilidade da produção, que utiliza o motor de um espremedor de frutas, ela só funciona algumas vezes ao dia.
Moreschi também joga luz sobre as produções de artistas indígenas da exposição. Em Cosmotécnica das Bordunas Tupinambá, Glicéria Tupinambá viajou para museus europeus onde estão objetos e peças de sua própria cultura, muitas vezes arquivados, preservados ou exibidos de maneira equivocada, e expôs seus registros e percepções na mostra. Já em Tecnologia Ancestral da Cerâmica, Irineu Nje’a Terena viajou pelo Brasil para resgatar parte de sua cultura. Os Terena têm uma tradição ligada à cerâmica, a qual se perdeu no deslocamento do Mato Grosso do Sul para o interior de São Paulo, onde hoje se localizam. “Irineu começou a viajar para o Mato Grosso do Sul para aprender essas técnicas, voltar para Bauru e ensinar a comunidade dele.” Moreschi explica que, como a técnica é tradicionalmente utilizada pelas mulheres, o artista fez um agenciamento com mulheres do Mato Grosso do Sul durante o processo. “Existe todo um ritual de permissão, que tem muito a ver com quando falamos com os dados, com o consentimento de dados, de pedir permissão para compartilhar um dado ou para ter acesso a ele. Os pesquisadores indígenas têm esse cuidado quando estão tratando da sua própria cultura.”
Outro diálogo bastante potente entre duas obras aparece entre Imagens de Acesso V2, de Gu da Cei, e Una Obra Permanente, de Isidoro Valcárcel Medina. Enquanto a primeira, recente, é um vídeo montado a partir de imagens de câmeras de reconhecimento facial no transporte público, a segunda, dos anos 1970, se vale da reciprocidade para propor o compartilhamento de dados, como explica o texto de apresentação da mostra: “O artista oferece suas informações pessoais na metade superior e convida o público a preencher a inferior com seus dados”.
O curador Gabriel Pereira entende que essas produções podem suscitar debates importantes na contemporaneidade: “Os dois falam sobre o direito ao nosso rosto, aos nossos dados pessoais. Discutem vigilância em massa e controle de dados. São artistas de épocas diferentes que dialogam de forma impressionante”.

Os curadores dão destaque, também, à obra Canal*MOTOBOY, de Antoni Abad. Numa época anterior à presença massiva de câmeras nos aparelhos celulares, o artista espanhol distribuiu câmeras integradas para que os motoboys registrassem o cotidiano de seus trabalhos. Para Pereira, “foi uma forma de dar voz e visibilidade a um grupo marginalizado, muito antes das redes sociais atuais”. Heloisa completa: “Esses usos não programados ou não óbvios da tecnologia muitas vezes são feitos por ativistas. Artistas também são ativistas”.
O uso da tecnologia reaparece em Re-member, de Leandra Espírito Santo, que reúne reproduções de membros do corpo humano feitas de fibra de vidro e resina, que se movimentam e são transportadas de forma mecânica. A obra funciona por meio de peças e mecanismos retirados de outros equipamentos, isto é, de lixo tecnológico, transformado em algo novo. “A exposição é muito voltada para estimular o visitante a pensar o que fazer com a tecnologia. Por um lado, a exposição é muito crítica em relação às tecnologias e aos seus usos, por outro, não é apocalíptica. A ideia é incentivar a pensar de maneira criativa sobre como usar essas ferramentas que estão no nosso dia a dia”, comenta Heloisa.

Crítica, criatividade e otimismo
Para os curadores, Antagonistas: Resistências Algorítmicas traz como mensagem a ideia de não aceitar as coisas passivamente. “A arte tem um papel fundamental de nos desfamiliarizar das situações que vivemos – as injustiças, os problemas sociais, as estruturas de poder – e de imaginar alternativas”, analisa Gabriel Pereira. Mais do que isso, a exposição estimula a pensar a tecnologia como algo mais amplo, para além de supercomputadores, e compreendendo, inclusive, técnicas tradicionais como a cerâmica. “A ideia é sempre dar autonomia para as pessoas. Nós temos as ferramentas digitais nas mãos, mas podemos sempre achar uma brecha para fazer um uso mais crítico mesmo, não subordinado”, complementa Heloisa.

Ao longo da exposição, aparecem várias obras cujo foco é a crítica a governos autoritários, não só no Brasil, mas também em outros lugares da América Latina que passaram por ditaduras na segunda metade do século passado. Sobre isso, Moreschi avalia a importância do desenvolvimento da arte postal, presente em várias das produções: “Os Correios eram uma tecnologia da época, e os artistas pensaram em se apropriar dessa tecnologia, que era estatal, para criar um canal alternativo de trocas e burlar a censura”. Trata-se, aí, de uma resposta a governos autoritários por meio do pensamento crítico em uma época em que exposições mais críticas não eram permitidas – tempo em que o MAC era dirigido pelo professor Walter Zanini (1925-2013).
Apesar do tom crítico, Moreschi acredita que o otimismo também deve ser um objetivo a ser perseguido: “Hoje, quando falamos em inteligência artificial, por exemplo, o discurso é muito alarmista. E eu acho que com razão, é tudo muito preocupante. Mas às vezes o pessimismo nos paralisa. Trouxemos artistas de diferentes épocas que decidiram reagir, fazer coisas, ser protagonistas. E isso significa que pode haver saída. Talvez não na escala necessária, mas existem, aqui, sementes e experiências que, se olharmos com carinho, podemos replicar”.
A exposição Antagonistas: Resistências Algorítmicas fica em cartaz até 22 de fevereiro de 2026, de terça-feira a domingo, das 10 às 21 horas, no Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP (Avenida Pedro Álvares Cabral, 1.301, Ibirapuera, em São Paulo). Entrada grátis
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