O público brasileiro poderá conferir três dos nove filmes brasileiros que ganharam destaque no circuito internacional de festivais ao serem selecionados para a Mostra de Cinema Brasileiro, parte das iniciativas do Ano Cultural Brasil-China 2026, que integrou a programação do Festival Internacional de Cinema de Xangai – SIFF. A Herança de Narcisa, terror estrelado por Paolla Oliveira, com direção de Clarissa Appelt e Daniel Dias, já está em cartaz nos cinemas. Já A Fabulosa Máquina do Tempo, novo documentário de Eliza Capai, e o drama Feito Pipa, com Lázaro Ramos e dirigido por Allan Deberton, chegam às salas brasileiras respectivamente em 30 de julho e 24 de setembro deste ano.
Do horror psicológico ao sertão do Piauí
O terror “A Herança de Narcisa”, estrelado por Paolla Oliveira e dirigido por Clarissa Appelt e Daniel Dias, já iniciou o seu circuito de exibição comercial no país. Considerada a estreia de Paolla Oliveira no cinema de horror, a obra transita pelo suspense psicológico e o drama familiar por meio da relação da protagonista Ana com sua mãe Narcisa, uma ex-vedete já falecida. Mesclando o suspense psicológico, o sobrenatural e o drama familiar, a trama acompanha a personagem principal, que, após perder a mãe, decide vender a casa onde cresceu, mas é obrigada a confrontar as memórias do passado quando começa a ser assombrada pela matriarca. O filme foi representado por Paolla Oliveira e os diretores Clarissa Appelt e Daniel Dias na comitiva brasileira que foi à Ásia para as celebrações do Festival de Xangai.
Segundo Appelt, a reação do público chinês ao longa foi “emotiva e muito bonita”, demonstrando a capacidade da arte de alcançar “plateias de culturas tão diferentes”. Ela conta que tal recepção não se limitou apenas a A Herança de Narcisa, também tendo presenciado respostas calorosas a outras histórias brasileiras. “É muito importante o intercâmbio cultural com o mundo todo, mas com a China, especialmente, esse contato e essa troca cultural foram muito ricas”, finaliza.
O longa conquistou o Troféu Redentor de Melhor Filme na mostra Novos Rumos do Festival do Rio.
Já o circuito de documentários ganha reforço nesta quinta-feira, 30 de julho, com a estreia de “A Fabulosa Máquina do Tempo”. Dirigido por Eliza Capai, o longa-metragem aborda temas como desigualdade social, infância e relações de gênero. A obra acompanha o amadurecimento de um grupo de meninas em Guaribas, no sertão do Piauí, município escolhido em 2003 como projeto piloto do programa Fome Zero devido aos seus índices econômicos na época.
Para a produtora Mariana Genescá, que representou o documentário na exibição na China, é em experiências como essas “que vemos, na prática, como a arte e o cinema têm o poder de encurtar distâncias, desfazer fronteiras e de nos conectar através da essência máxima do que é ser humano”. Segundo Genescá, a audiência chinesa recebeu A Fabulosa Máquina do Tempo de forma calorosa, comparecendo em peso para a sessão-debate, que teve os ingressos esgotados. Para ela, a participação do público, com perguntas pertinentes e curiosas, demonstrou “como eles tinham entendido muito bem o filme, em todas as suas camadas e complexidades”.
A produção teve première mundial no Festival de Berlim, além de premiações nos festivais de Guadalajara e Cine PE.
Memória, aceitação e o Urso de Berlim
Com estreia agendada para 24 de setembro deste ano, o drama “Feito Pipa”, dirigido por Allan Deberton, traz no elenco Lázaro Ramos, Teca Pereira e o jovem ator Yuri Gomes. Ambientada no Nordeste, a trama investiga a infância, as vivências de um garoto queer e os laços com a avó, cercados por conflitos familiares que emergem após a estiagem severa de uma barragem local. A tranquilidade da vida que levam juntos passa a ser ameaçada quando a seca revela as ruínas de uma antiga cidade e, junto delas, o estado de saúde de sua avó, o que pode obrigá-lo a morar com o pai, Batista, com quem tem uma relação turbulenta.
Sobre a experiência, Deberton conta que foi “bonito perceber que as diferenças culturais não impediram a conexão com o protagonista e sua trajetória”, pelo contrário, “o jeito de ser de Gugu, a situação de sua família e do lugar onde vive parecem ter despertado curiosidade e identificação”. “Essa é uma das maiores forças do cinema: apresentar um universo particular e, ao mesmo tempo, revelar emoções que podem ser compreendidas em qualquer parte do mundo”, conclui o diretor.
A produção audiovisual conquistou o Urso de Cristal de Melhor Filme e o Grande Prêmio do Júri Internacional no Festival de Berlim, além de circular pelos festivais de Cartagena e Guadalajara.

(Crédito: Rayane Mainara)
A mostra institucional na Ásia reuniu ainda títulos como a cópia restaurada de “A Hora da Estrela”, de Suzana Amaral, “Para Vigo me Voy!”, de Lírio Ferreira e Karen Harley, e a animação “Coração das Trevas”, de Rogério Nunes, planejada para estrear no mercado nacional até o final de 2026. O programa de intercâmbio econômico e diplomacia cultural é realizado pelo Ministério da Cultura (MinC) em parceria com o Ministério das Relações Exteriores (MRE), com o patrocínio do BNDES, Petrobras e Caixa Econômica Federal e cooperação técnica da Unesco.
