O funk está por toda parte. Dos bailes de favela aos casamentos, festas universitárias e grandes festivais. Neste ano, esteve até mesmo nos Jogos Olímpicos de Paris: a ginasta Rebeca Andrade apresentou o solo que levou a medalha de ouro ao som do Movimento da Sanfoninha, de Anitta, e do Baile de Favela, do MC João. Recentemente o funk ganhou até mesmo um dia nacional, que será comemorado todo dia 12 de julho. Apesar de ser tão presente no cotidiano dos brasileiros, esse estilo musical passa longe dos conservatórios e universidades. Professor de música clássica e funkeiro, o músico Thiago de Souza quer mudar esse cenário. Em sua tese de doutorado, ele propõe uma teoria musical que dê conta de analisar o funk como uma música eletrônica da diáspora africana. O músico acaba de defender a tese na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.
“Toda teoria costuma vir de uma prática. Essa teoria tradicional que a gente tem, ela vem da prática da música de concerto europeia, instrumental. O funk não é nada disso. O funk é uma música eletrônica dançante afrodiaspórica. Então, é pensar uma forma de análise musical que dê conta desse fenômeno. E, ao mesmo tempo, buscar fazer uma crítica da universidade, porque esse tipo de repertório historicamente sempre foi deslegitimado. O funk [serve como] como modelo de toda a música marginal, preta, periférica que ficava de fora e ainda fica de fora das universidades e dos espaços de ensino musical”, explica Thiagson, como é conhecido nas redes sociais.
O pesquisador mantém nas plataformas sociais o Canal do Thiagson, onde posta vídeos sobre temas como música, educação, racismo e preconceito linguístico. Com 142 mil seguidores no Instagram, seus vídeos já chamaram a atenção de jornalistas e editores. Em 2023, Thiagson publicou o livro Tudo o que você sempre quis saber sobre funk… mas tinha medo de perguntar pela editora Tipografia Musical. O livro reúne reflexões sobre diversas questões relacionadas ao funk. São temas como as aproximações com a música clássica, o preconceito contra a música popular e a formação social do gosto musical. Também comenta polêmicas envolvendo as letras explícitas de muitos funks e os mitos no imaginário coletivo quando o assunto é o baile. São reflexões que estão também presentes nos vídeos do canal.
Para Thiagson, o preconceito contra o funk está umbilicalmente ligado ao fato de ser “som de preto, de favelado”, como cantaram MC Amilcka e Chocolate. Uma história que já se passou com outras expressões da cultura popular, incluindo o samba e a capoeira, e agora se repete.

