O cenário é um dos cartões-postais mais famosos do mundo. No fim de tarde em Ipanema, na Zona Sul do Rio de Janeiro, os últimos raios de sol iluminam um espetáculo de habilidade, coordenação e resistência à beira-mar. Entre voleios, bicicletas e passes improvisados, as rodas de altinha ditam o ritmo da praia. O objetivo é simples: manter a bola no alto. No entanto, para as mulheres que ocupam esse espaço, cada toque na bola carrega um significado muito maior: a conquista de um território historicamente negado.
Essa ocupação é o ponto central do trabalho da premiada fotógrafa e jornalista carioca Luciana Whitaker. Ela registrou a intimidade e a destreza dessas atletas urbanas para o projeto “Donas da Bola”. A iniciativa nasceu em 2014, motivada pelo incômodo de ver o mulheres no futebol brasileiro ainda marginalizadas, mesmo no ano em que o país sediava a Copa do Mundo masculina. Na época, 11 fotógrafas percorreram o Brasil para documentar a relação feminina com o esporte.
O voo das mulheres na altinha

A altinha, como explica Luciana, funciona como uma espécie de frescobol do futebol. Não existem placares, rivalidades ou vencedores formais. O sucesso do jogo depende do esforço coletivo. Quanto menos erros acontecem, mais a dinâmica evolui.
Para capturar essa essência, a fotógrafa buscou jogadoras que transformam a areia em palco de pura habilidade. Muitas dessas atletas carregam a paixão pelo esporte desde a infância. É o caso de Ninna, uma das protagonistas do ensaio de Whitaker. Ela aprendeu os primeiros fundamentos da altinha jogando com o pai.

O vigor físico e a entrega dessas mulheres impressionam quem observa os registros. “Ela voa para chegar na bola”, relata Luciana sobre o desempenho de Ninna. O clima descontraído e a paixão pelo jogo também se destacam nos bastidores. “Quando viu as fotos, ela me disse: ‘Nesse dia eu estava de ressaca. Jogo muito melhor de ressaca!’”, diverte-se a fotógrafa.
Da linha de fundo à consagração internacional
A sensibilidade por trás das lentes de “Donas da Bola” reflete a carreira sólida de Luciana Whitaker. Ex-editora de fotografia da Folha de S.Paulo, Luciana acumula publicações em prestigiados veículos internacionais, como Le Monde, The Washington Post e The Times.
Seu portfólio viaja de extremos geográficos a poéticas urbanas. Venceu grandes concursos com a série “Vestígios”, que revela ruínas ocultas na Floresta da Tijuca, e passou mais de uma década no Alasca documentando o povo indígena Iñupiaq em Barrow — imersão que resultou no livro “11 Anos no Alasca”.
Olho no futuro: A caminho de 2027
Mais de uma década após o pontapé inicial do projeto, o coletivo “Donas da Bola” mira um novo horizonte. Com a confirmação do Brasil como país-sede da Copa do Mundo Feminina em 2027, o grupo busca patrocínio para retomar a estrada e atualizar o diagnóstico do esporte no país.
O objetivo da nova fase é entender as transformações sociais ocorridas nos últimos dez anos e registrar o avanço do espaço conquistado pelas jogadoras brasileiras. A batalha pela igualdade de condições, investimentos e visibilidade no esporte ainda está longe do fim.

“As mulheres ganharam algum espaço, mas ainda pouco. Queremos registrar a evolução dessa luta”, define Luciana Whitaker. Nas areias de Ipanema ou nos gramados profissionais, o recado está dado: a bola também é delas.
Com informações originais publicadas pelo blog The Summer Hunter.
