Um abismo ambiental separa as capitais da Região Sul do Brasil quando o assunto é infraestrutura verde. Dados oficiais do Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que, enquanto Curitiba (PR) e Porto Alegre (RS) ostentam índices de arborização dignos de cidades localizadas nos países mais desenvolvidos, Florianópolis (SC) registra um grave déficit ecológico, amargando uma das piores marcas entre todas as capitais brasileiras.
A disparidade é alarmante. Na capital paranaense, 88,2% dos domicílios contam com vias arborizadas no seu entorno. Logo atrás, a capital gaúcha apresenta 85,5%. Na contramão desse cenário, Florianópolis tem apenas 47% de suas residências cercadas por árvores urbanas, ficando abaixo da média nacional e escancarando a falta de planejamento verde na Ilha de Santa Catarina. Para o IBGE, uma via é considerada arborizada quando possui ao menos uma árvore acima de 1,70 metro de altura no trecho do domicílio pesquisado.
O preço do crescimento sem planejamento
Especialistas em urbanismo apontam que a lanterna de Florianópolis no ranking do Sul é o reflexo direto de uma expansão urbana rápida, agressiva e historicamente desordenada. A capital catarinense cresceu de costas para o planejamento paisagístico, priorizando o asfalto e a especulação imobiliária em detrimento das áreas verdes públicas.
Diferente de Curitiba, que planejou seus eixos viários com calçadas largas prontas para receber o plantio urbano, Florianópolis lida com ruas estreitas, fiação aérea antiga e passeios públicos que mal comportam a circulação de pedestres, quanto mais o crescimento de raízes. Além disso, a ocupação acelerada e sem critérios de áreas de morro, restinga e manguezais suprimiu a vegetação nativa que originalmente regulava o microclima da ilha.
Consequências no asfalto: Calor extremo e enchentes
A falta de árvores nas ruas da capital manezinha não é apenas uma questão de estética, mas de saúde pública e segurança. Sem a cobertura de copas para bloquear a radiação solar, Florianópolis sofre de forma severa com o efeito das “ilhas de calor urbano”. Nos dias de verão, calçadas e vias asfálticas sem sombra transformam-se em verdadeiros radiadores, elevando a sensação térmica em até 8°C na comparação com áreas florestadas.
Outro preço cobrado pela falta de arborização é a vulnerabilidade a alagamentos. As árvores cumprem um papel hidrológico vital: suas copas interceptam as primeiras gotas de tempestades e suas raízes quebram a compactação da terra, facilitando a infiltração da água no lençol freático. Em uma cidade altamente impermeabilizada e com baixo índice de árvores como Florianópolis, o volume de chuva corre de forma instantânea pelas superfícies lisas, sobrecarregando o sistema de drenagem e gerando enchentes relâmpago nas principais avenidas e bairros periféricos.
O Desafio do Plano Diretor
Embora cercada por belezas naturais e praias, a Florianópolis urbana reclama uma virada de chave em suas políticas públicas. Movimentos socioambientais e urbanistas pressionam para que novas diretrizes de zoneamento urbano e o Plano Diretor incluam a obrigatoriedade de Soluções Baseadas na Natureza (SBN), como calçadas verdes e o plantio em massa de espécies nativas, para que a cidade possa correr atrás do prejuízo histórico e garantir um futuro resiliente frente às mudanças climáticas.
Meio Século de atraso: o despertar reativo de Florianópolis frente ao pioneirismo de Curitiba
A urgência climática finalmente forçou a capital catarinense a se movimentar. A Prefeitura de Florianópolis, por meio da Fundação Municipal do Meio Ambiente (Floram), conduz as oficinas territoriais e consultas públicas para estruturar o seu inédito Plano Municipal de Arborização Urbana (PMArbo Floripa). A iniciativa tenta criar regras claras e metas de plantio viário para reverter o incômodo título de pior arborização do Sul do país.
O movimento, contudo, escancara um anacronismo histórico: Florianópolis discute em 2026 o que Curitiba transformou em lei exatamente 49 anos atrás. Na capital paranaense, o primeiro plano oficial de manejo e arborização foi assinado pelo Decreto Municipal nº 490 de 1977. Lá atrás, as árvores foram desenhadas em conjunto com o sistema de transporte e o Plano Diretor, permitindo que a cidade crescesse com calçadas projetadas para abrigar raízes e redes elétricas planejadas.
A Ilusão do verde e o preço da omissão
A demora de Florianópolis em institucionalizar sua infraestrutura verde gerou o que engenheiros florestais chamam de “falsa ilusão”. Por possuir cerca de 60% do seu território composto por vegetação (concentrada em morros, encostas protegidas e parques), o poder público negligenciou por décadas as calçadas e o asfalto das áreas urbanas densas e das periferias.
Essa omissão histórica gerou um crescimento “no sufoco”. Agora, o PMArbo Floripa corre contra o tempo para implantar árvores de forma reativa, herdando conflitos complexos:
- Fiação aérea e calçadas estreitas: Ruas que foram pavimentadas sem recuo predial ou faixas de terra agora disputam espaço milimétrico entre pedestres, fiações elétricas antigas e raízes de novas mudas.
- Pressão Nacional: O plano atual não nasceu de um ímpeto preventivo local, mas sim da necessidade legal de adequação ao Programa Cidades Verdes Resilientes do Governo Federal e ao Plano Nacional de Arborização Urbana (PlaNAU).
O diagnóstico nas ruas
Enquanto Curitiba gerencia uma floresta urbana consolidada com um inventário de mais de 300 mil árvores monitoradas sistematicamente, Florianópolis deu os seus primeiros passos em junho deste ano. Uma empresa especializada foi contratada para realizar um inventário amostral, catalogando as primeiras 6 mil árvores das vias públicas para entender o tamanho do deficit e a saúde da pouca vegetação existente na Ilha e no Continente.
O recém-lançado Manual de Arborização Urbana de Florianópolis tenta colocar ordem no caos, proibindo o uso de espécies exóticas invasoras e definindo quais árvores nativas se adaptam melhor ao ambiente litorâneo sem destruir tubulações subterrâneas.
A mobilização da sociedade civil nas audiências públicas demonstra que o morador de Florianópolis cobra por um ambiente mais fresco e resiliente. A cidade tenta, finalmente, dar o salto político e urbanístico que Curitiba consolidou no século passado. O desafio agora é transformar as sugestões colhidas nos mapas em árvores plantadas no asfalto.
