Um casaco de veludo dos anos 1970 passa de mão em mão sob a luz do pavilhão, enquanto o som de guitarras psicodélicas se mistura ao estalo seco das rodinhas de skate no concreto. Longe do circuito tradicional de shoppings e grandes varejistas da maior cidade de Santa Catarina, o gesto de garimpar roupas usadas deixou de ser apenas uma escolha de consumo econômico. Para o público jovem local, o ato funciona como uma demarcação de território cultural e estético. É nessa fricção entre o resgate do passado e a urgência de novas formas de convivência que se ancora a sexta edição do Desencontro, maior festival multicultural do Sul do Brasil, focado em economia circular.
Recorde de expositores
O evento reflete um fenômeno urbano crescente na região Sul: a consolidação de feiras independentes como plataformas de sobrevivência e expansão para microempreendedores. Criado originalmente para preencher uma lacuna de programações voltadas às referências da juventude de Joinville, o projeto expandiu sua escala geográfica. O festival atrai agora mais de 80 expositores da cidade e de outras regiões do país para ocuparem o Expocentro Edmundo Doubrawa. O avanço do formato sinaliza como o mercado de segunda mão e o upcycling (reutilização de materiais com valor agregado) deixaram as margens para se tornarem o motor central de redes comerciais alternativas.
Os números do ecossistema dão a dimensão do impacto desse mercado na economia local. A edição anterior do festival, realizada em maio, atraiu um fluxo de mais de 4 mil pessoas e movimentou mais de R$ 800 mil. A sustentação financeira do modelo baseia-se na diversificação da experiência do público. A produção, assinada pelo Pingo Estúdio Criativo, amarra a moda circular a uma curadoria que engloba gastronomia regional, pistas de skate operadas por marcas apoiadoras, apresentações visuais de live painting e uma exposição de carros antigos da Select Car Meet. Nas redes sociais, a engrenagem digital voltada para o público jovem gerou 3 milhões de visualizações em 90 dias de campanha.
Sob o tema “Caos Tropical”, a atual edição busca amparo histórico na contracultura brasileira das décadas de 1960 a 1980. A curadoria musical e a identidade visual resgatam a irreverência experimental de nomes como Os Mutantes, Secos & Molhados e a neo-psicodelia de bandas contemporâneas como Boogarins e O Terno. Essa costura temporal expõe a tensão estrutural que move o evento: o desafio de manter o DNA de contestação, originalidade e fuga do mainstream enquanto o festival se institucionaliza, cresce em faturamento e adota dinâmicas corporativas de patrocínio e ativação de marcas.
O espaço do pavilhão opera, assim, como um termômetro social da região. De um lado, pequenos produtores encontram no evento a oportunidade anual de testar produtos, gerar vendas diretas e validar marcas fora do ambiente estritamente digital. De outro, uma fatia do público local consome um ideal de sustentabilidade e exclusividade estética que confronta os moldes tradicionais do comércio industrial catarinense. O festival projeta sua força ao unificar essas frentes, deixando exposta a busca constante por um equilíbrio entre a viabilidade financeira de um negócio de grande porte e a preservação da essência comunitária que lhe deu origem.
A poeira fina do giz que demarca as manobras de skate assenta na pista ao fim do dia, sob o eco de uma faixa de Rita Lee. Entre uma arara de roupas garimpadas e um prato de culinária vegana local, o público consome não apenas objetos, mas o pertencimento a uma cena que tenta reinventar o cotidiano da cidade industrial.
Serviço
O quê: Desencontro – Caos Tropical
Quando: 5 de setembro de 2026, sábado
Onde: Expocentro Edmundo Doubrawa Endereço: Avenida José Vieira, 315, América, Joinville, SC
Horário: das 12h às 20h30
Quanto: ingressos antecipados: R$ 20,00 (Caçadores de Relíquias – poderá entrar uma hora antes do evento oficialmente ser aberto, para garimpagem exclusiva) R$10,00 Ingressos antecipados e na portaria: R$ 15,00
Link ingressos: https://shotgun.live/festivals/desencontro-caos-tropical
Mais informações: @desencontro__ @pingoestudios
