Por alguns minutos, o trânsito e a rotina de Florianópolis deram lugar a um espetáculo de pura concentração no céu. Olhando para o alto, moradores e turistas testemunharam o atleta catarinense Rafael Bridi desenhar uma nova imagem sobre o principal cartão-postal da cidade. Caminhando em silêncio sobre uma fita de apenas 2,5 centímetros de largura, Bridi superou o próprio recorde e estabeleceu a maior marca de highline urbano das Américas.
O feito aconteceu na tarde deste sábado (16), unindo a celebração do centenário da Ponte Hercílio Luz a mais um capítulo histórico do esporte de aventura no Brasil. O atleta completou o percurso de 605 metros de extensão, a 85 metros de altura do chão, conectando a torre da ponte a um edifício próximo ao acesso da ilha. A travessia durou exatos 28 minutos.
O Desafio do Vento e a Mudança de Planos
O projeto original desenhado por Bridi e sua equipe era ainda mais ambicioso. A meta era realizar o trajeto de ida e volta, somando 1,2 quilômetro, o que garantiria o topo do recorde mundial de highline urbano — marca que pertence atualmente ao estoniano Jaan Roose, com 1.070 metros cruzados na Turquia.

Contudo, os esportes de altitude exigem respeito absoluto às condições da natureza. Durante a primeira perna do trajeto, Bridi se desequilibrou e caiu, sendo amparado com segurança pelos equipamentos de proteção. Por conta disso, apenas o percurso de volta (da torre da ponte até o prédio) foi contabilizado.
Ainda assim, a distância foi mais do que suficiente para esmagar o recorde anterior das Américas, que também pertencia ao catarinense. Em 2023, Bridi havia caminhado 515 metros no Vale do Anhangabaú, na capital paulista.
Conexão Emocional em Casa
Para o atleta, a conquista teve um sabor diferente por acontecer em sua cidade natal. Bridi já realizou exibições extremas ao redor do planeta, mas destacou a energia de competir sob os olhos de quem acompanha a sua jornada desde o início.
“Quando eu olhava para frente, via o desafio. Quando olhava ao redor, via a minha história. Ter minha família, meus amigos, minha equipe e tanta gente torcendo ali embaixo tornou tudo muito forte”, revelou Bridi.
O atleta também pontuou que a modalidade exige presença absoluta e estabilidade mental, já que o vento e a paisagem mudam a cada segundo. “Lá em cima, não existe piloto automático. A fita conversa com o corpo”, explicou.
Bastidores e Engenharia Internacional
A operação logística para esticar uma fita a 85 metros de altura no coração de Florianópolis exigiu suporte estrangeiro especializado. Bridi contou com o apoio dos norte-americanos Brian Logan Henning, Brandon Lee Proffitt e Sean Eric Englund, membros da Uncharted Lines.
A empresa é reconhecida globalmente por assinar projetos colossais de highline, incluindo estruturas na China e uma linha histórica de 4,1 quilômetros em Utah, nos Estados Unidos. O time internacional destacou a força simbólica e a responsabilidade técnica de operar na estrutura centenária da Ponte Hercílio Luz.
Próximo Alvo: O Topo do Mundo
Os documentos e imagens do desafio de sábado já estão sendo preparados para envio à Associação Internacional de Slackline (ISA) para obter a validação oficial do recorde das Américas.
Embora as condições climáticas tenham adiado o plano do recorde mundial, Rafael Bridi garantiu que o objetivo continua de pé. O atleta confirmou que pretende fazer uma nova tentativa para superar a marca global de Jaan Roose ainda neste ano de 2026.
Vale lembrar que Bridi já é dono de três títulos reconhecidos pelo Guinness Book: a maior travessia dentro de um vulcão ativo (Vanuatu), o highline mais alto em relação ao solo (realizado entre dois balões na Serra Catarinense) e a travessia sobre o Salto Angel, a maior cachoeira do mundo, localizada na Venezuela.
