Uma investigação exclusiva do veículo Intercept Brasil revelou que o filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, foi integralmente rodado no país sem cumprir nenhuma obrigação legal perante a Agência Nacional do Cinema (Ancine). Segundo a reportagem do Intercept Brasil, a produtora Go Up Entertainment Ltda. teria operado de forma clandestina, ocultando contratos, sonegando direitos trabalhistas e trazendo elenco estrangeiro sem vistos de trabalho válidos.
Os dados ocultados e a fraude dos vistos
Documentos oficiais da Ancine obtidos pelo Intercept Brasil confirmam que a agência reguladora sequer sabia se a obra era nacional ou internacional. Pela Instrução Normativa nº 79/2008, a Go Up deveria ter submetido quatro documentos obrigatórios antes de ligar as câmeras, o que nunca ocorreu.
- Sem rastro: O Serviço de Informação ao Cidadão (SIC) arquivou o caso como “informação inexistente”.
- Ilegalidade consular: Sem o aval da Ancine, o elenco estrangeiro trabalhou sem os vistos adequados.
- Blindagem política: Eduardo Bolsonaro assinou o contrato com poder direto sobre o fluxo do dinheiro do projeto.
Bastidores: Pseudônimos e exploração no set
A apuração do Intercept Brasil também expôs o racha nos bastidores da produção. Para convencer profissionais de elite a participarem da obra política, os produtores pagaram valores inflacionados acima do mercado. Mesmo assim, por vergonha de associar seus nomes à biografia, técnicos exigiram assinar o filme sob nomes fictícios.
Na outra ponta da folha de pagamento, trabalhadores enfrentaram um cenário degradante:
- Falta de informação: Figurantes foram enganados e só souberam o tema do filme no set.
- Maus-tratos: Sindicatos (Sindcine e Sated-SP) constataram agressões físicas, restrição a banheiros e comida estragada.
- Dívidas locais: A superprodução milionária deu calote de R$ 5 mil até no café usado como locação.
De acordo com Intercept Brasil, em 14 de janeiro deste ano, munido da confirmação oficial da Ancine, o Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Cinematográfica e do Audiovisual dos Estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins e Distrito Federal, o Sindcine, protocolou denúncia formal, um pedido de informações e um requerimento de providências.
De acordo com o sindicato, houve “notícia consistente de contratações sem formalização adequada e pagamentos sem os parâmetros mínimos de regularidade”. A Go Up Entertainment não havia cumprido as obrigações contratuais assumidas com técnicos cinematográficos brasileiros. A Ancine disse que “os processos de apuração estão em curso, observando os prazos e ritos normativos” e que notificou a Go Up.
