Existe um instrumento pensado, por definição, para tocar sozinho dentro de uma banda. Uma vez por ano, em Florianópolis, essa lógica se inverte: uma praça inteira se enche de baterias voltadas para a mesma direção, e centenas de pessoas — de um a 78 anos, iniciantes e profissionais, roqueiros e gospel — tocam juntas como se fossem um único corpo sonoro. É essa cena que a Orquestra de Baterias de Florianópolis recria pelo 13º ano consecutivo, reunindo cerca de 400 bateristas de sete estados brasileiros.
O que começou como uma aposta improvável em 2013 — colocar a bateria, e não a banda inteira, no centro de um espetáculo — se consolidou como um dos eventos mais interessantes do calendário cultural da cidade, e um raro caso de instrumento historicamente solitário transformado em experiência coletiva de massa.
Uma ideia que deu certo por ir contra o óbvio
A orquestra nasceu de um convite: o idealizador e regente Alexei Leão foi chamado para criar um encontro de músicos durante a Maratona Cultural de Florianópolis e decidiu, em vez de reunir instrumentos variados, apostar só na bateria. “Desde o início, a ideia era fazer algo diferente. A bateria como protagonista não é comum. Quando esse monte de baterias toca junto, cria uma massa sonora rara. As pessoas sempre se emocionam porque é uma experiência muito forte”, explica.
Treze anos depois, a aposta virou fenômeno de escala. Nesta edição, 120 participantes estreiam na orquestra, enquanto 260 retornam de edições anteriores — um índice de permanência que diz bastante sobre o tipo de vínculo que o projeto cria com quem já passou por ele. Quase 30% dos inscritos são mulheres, presença que cresce ano a ano num instrumento historicamente associado ao universo masculino.
O que torna a mistura possível
A diversidade não é acidente — é condição de funcionamento. No mesmo palco tocam crianças e veteranos, músicos profissionais e iniciantes, bateristas de rock, heavy metal, gospel, sertanejo, MPB e pop, todos executando o mesmo repertório ao mesmo tempo. Para isso funcionar, a seleção musical precisa ser pensada especificamente para acomodar níveis técnicos muito diferentes numa mesma partitura coletiva — o desafio não é escolher boas músicas, é escolher músicas que sejam ao mesmo tempo acessíveis a quem está estreando e satisfatórias para quem já toca profissionalmente.
Queen e CPM 22
O repertório de 2026 passeia por gerações e gêneros musicais bem distintos: de “Crazy Little Thing Called Love”, do Queen, e “Highway Star”, do Deep Purple, a “Levitating”, de Dua Lipa, e “Try”, de Pink, passando por “Tarde de Outubro”, do CPM 22, e “Admirável Chip Novo”, da Pitty. Um dos destaques fica com “Acordar”, da banda catarinense Um Quarto — escolha que reforça a valorização da cena musical local dentro de um projeto que hoje recebe gente de fora do estado.
Para o baterista Thales Stipp, que integra a orquestra há anos e hoje vive profissionalmente da música — toca na banda de Di Ferrero e sobe ao palco do Rock in Rio em setembro —, é exatamente essa mistura que sustenta o retorno ano após ano. “O que sempre me fez voltar foi a vibe e o negócio de ser muito democrático. Vai da criancinha de 3, 4 anos até a senhora de 84.” Ele descreve também um efeito que ultrapassa a música: “O impacto cultural é gigantesco. Traz turismo, traz as pessoas para Floripa.”
De encontro local a vitrine internacional
O que era, em 2013, um evento pensado para a Maratona Cultural de Florianópolis hoje atrai participantes de Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná, Rio de Janeiro, Distrito Federal, Ceará e Mato Grosso do Sul, além de convidados internacionais. Para Alexei Leão, esse alcance transformou a orquestra em algo maior do que um espetáculo local.
“É uma grande vitrine musical de Florianópolis para o Brasil e também para o exterior. Tenho participado de encontros em outros países e convidado músicos de fora para estarem aqui. A orquestra acabou criando essa conexão.”
O projeto é uma realização do Instituto Maratona Cultural, com apoio da Ibagy e da Hurbana – Cidade para as Pessoas, patrocínio da Fundação Franklin Cascaes e da Lei Municipal de Incentivo à Cultura da Prefeitura de Florianópolis, e incentivo do ICRH e da Tigre, via Lei Estadual nº 17.942/2020.
No fim, o que sustenta o projeto talvez não seja nem a escala — 400 músicos, sete estados, mais de uma década de história —, mas o que Alexei resume como sua maior virtude: “Tem quem toque pop, gospel, metal, sertanejo, música brasileira. Quando todo mundo toca junto, isso deixa de importar. Vira uma massa sonora unida.” Num instrumento pensado para a solidão, Florianópolis criou, uma vez por ano, o oposto disso.
