Neste 21 de setembro, data em que o país marca o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, os dados mais recentes do Censo 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), trazem um banho de realidade sobre o tamanho do desafio estrutural que o Brasil enfrenta. O diagnóstico censitário evidencia que as barreiras históricas denunciadas neste dia de mobilização ultrapassam o preconceito social: elas estão consolidadas na falta de acesso a direitos básicos como esgotamento sanitário, água potável, internet e mobilidade urbana.
A data, instituída para conscientizar sobre a importância de criar políticas públicas de inclusão, ganha um panorama de urgência. Os indicadores mostram que as cidades brasileiras continuam segregando a população com deficiência no próprio chão onde a vida acontece.
O retrato da desigualdade habitacional e tecnológica
A disparidade na infraestrutura dos lares é nítida quando o Censo compara domicílios com e sem moradores com deficiência. O acesso aos três serviços principais de saneamento básico integrado (rede de água, coleta de lixo e esgoto) atinge apenas 56,6% dos lares com PCDs, ante 60,2% nos demais imóveis.
Há ainda 2,4% de residências com pessoas com deficiência que sequer possuem um banheiro de uso exclusivo, e 1,4% construídas com paredes externas de materiais não duráveis. O único indicador habitacional numericamente favorável é o de adensamento excessivo (apenas 3% têm mais de três pessoas por dormitório), o que se explica pelo perfil etário: grande parte da população PCD é composta por idosos, que tendem a morar sozinhos.
O custo de deslocamento: Mais tempo e menos conforto no trânsito

A precariedade da infraestrutura das cidades brasileiras cobra um preço alto na rotina dos trabalhadores com deficiência. Em média, eles gastam 12% mais tempo para chegar ao trabalho (37 minutos) do que os profissionais sem deficiência (33 minutos).
Essa lentidão decorre diretamente da falta de alternativas de transporte privado e da dependência de modais mais desgastantes:
- Transporte Público: O principal contingente de trabalhadores PCDs depende de ônibus ou BRT (24,7%, contra 21% dos que não têm deficiência).
- Mobilidade Ativa Compulsória: As pessoas com deficiência precisam se deslocar muito mais a pé (23,7%) e de bicicleta (7,8%) do que os trabalhadores sem restrições (17,4% e 6,1%, respectivamente).
- Uso de Automóveis: Enquanto 32,8% da população sem deficiência se desloca utilizando carros ou táxis, apenas 22,8% dos trabalhadores PCDs têm acesso a esse conforto.
Essa realidade choca-se com os dados de gestão pública: apenas 490 dos 5.570 municípios brasileiros possuem espaços públicos devidamente adaptados para acessibilidade. Além disso, leis de passe livre municipal no transporte coletivo contemplam apenas 480 cidades no país.
Crise na Representação Política vs. Avanço no Serviço Federal
O pesquisador do IBGE, Leonardo Queiroz Athias, aponta que o país vive um momento de severo retrocesso na representação política eletiva desse grupo, esvaziando as instâncias onde as cidades são planejadas. Entre as eleições municipais de 2020 e 2024, o número de candidaturas despencou de 6.409 para 4.813, provocando uma queda drástica de pessoas eleitas:
Em contrapartida à exclusão nas urnas partidárias, o serviço público federal registrou um salto expressivo de inclusão institucional nos últimos anos. O percentual de servidores federais com deficiência saltou de 0,6% em 2019 para 3,1% em 2025. A ocupação de cargos comissionados de alta liderança (níveis 13 a 17) também avançou, subindo de 0,2% para 1,5% no mesmo período, impulsionada principalmente pela expansão do número de servidores identificados com o Transtorno do Espectro Autista (TEA).
