Na Itália dos anos centrais do século passado, uma disputa silenciosa se dava nas vitrines. Por cinco minutos, uma placa em uma livraria anunciava Jorge Amado como o maior escritor brasileiro; quarteirões depois, uma honraria idêntica coroava o gaúcho Erico Verissimo. O episódio, narrado por Amado ao amigo e imortalizado pelas lentes da fotógrafa Zélia Gattai, deixou o anedotário familiar na última quinta-feira (7) para se tornar documento histórico. O lançamento de Cartas: Jorge Amado – Erico Verissimo, na Casa Motiva, em Salvador, durante a Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), transforma quatro décadas de correspondência privada no mais recente capítulo de um sistema complexo de gestão de memória literária.
A obra é o sintoma visível de uma engrenagem institucional mantida pela Fundação Casa de Jorge Amado. Integrante da coleção “Um gesto de amizade” — que já organizou e expôs as trocas epistolares do autor baiano com o português José Saramago e com o dramaturgo Dias Gomes —, o novo título joga luz sobre um acervo cujas reais dimensões permanecem desconhecidas do público. São caixas que abrigam o registro de uma época em que a formulação estética e o debate político do Brasil passavam, invariavelmente, pelos Correios.
As correspondências, iniciadas na década de 1930 e encerradas apenas com a morte de Verissimo, em 1975, funcionam como um sismógrafo da produção cultural brasileira. Para a escritora Paloma Jorge Amado, filha do autor e organizadora da coletânea ao lado de Bete Capinan, o material escancara o método de criação da época, longe do escrutínio público. “Você tem o papai contando pro Erico que está escrevendo Jubiabá e ele mostra cada parte do livro, qual o esquema”, relata. A troca avança gradativamente para o papel de intelectuais públicos que ambos exerciam, culminando, como observa Fernanda Verissimo, neta de Erico, em uma frente articulada de resistência contra o Estado Novo e contra a censura prévia da ditadura militar nos anos 1970.
Contudo, a conversão desse volume monumental de papel em livros editados expõe a tensão central da preservação literária no Brasil: o limite entre o direito da sociedade à história de suas figuras públicas e o direito dos herdeiros ao controle da intimidade post mortem. O acesso ao acervo em Salvador, que baseia a Flipelô e as publicações, não é irrestrito. A triagem do que ganha as prateleiras e do que permanece lacrado nas caixas obedece a um filtro institucional estrito, mediado pela própria família.
“O nosso acervo de cartas é imenso, mas é algo que tem que ser trabalhado com muita cautela, logicamente, por tudo o que envolve os conteúdos e pela própria declaração de Jorge Amado, que não gostaria que isso fosse aberto indiscriminadamente”, justifica Angela Fraga, presidente da Fundação Casa de Jorge Amado. É a escritora Paloma Jorge Amado quem atua internamente na pesquisa desse material, ditando o ritmo e o recorte do que se torna público.
Essa política de guarda cria um funil no ecossistema da pesquisa e da historiografia. Enquanto o leitor e a academia dependem das publicações autorizadas, recortes inteiros da história literária, política e afetiva do país permanecem sob critérios privados de curadoria, inacessíveis a olhares não chancelados pela instituição.
A tarefa de recompor o cenário cultural do século 20 esbarra, ainda, na logística postal. Fiel à sua máxima de “nunca deixar de responder uma correspondência”, Jorge Amado acumulou as missivas que recebia, mas os originais das respostas que redigiu estão espalhados pelo mundo. Enquanto o novo livro é folheado pelo público no Pelourinho, revelando brincadeiras em que o baiano rebatizava o jovem Luis Fernando Verissimo de “Joãozinho”, o trabalho da fundação continua sendo tentar rastrear a outra metade desses diálogos. Um esforço que evidencia como a história oficial da literatura depende não apenas dos papéis que sobrevivem ao tempo, mas, sobretudo, daqueles que recebem permissão para serem lidos.
