O cineasta e ator carioca João Pedro Oliveira utiliza a direção cinematográfica para transformar a representação de personagens negros e periféricos no audiovisual brasileiro. A iniciativa tem como base a sua própria transição da comunidade de Vila Isabel, no Rio de Janeiro, para os festivais internacionais de cinema. O trabalho foca na criação de novas narrativas para o setor artístico, com produções que questionam os papéis historicamente atribuídos a esses grupos sociais.
Nascido em 1999, Oliveira iniciou a carreira artística após trabalhar como jovem aprendiz em uma instituição bancária. O deslocamento diário para o trabalho ampliou o acesso do profissional a aparelhos culturais como teatros, palestras e exposições na capital fluminense. Sem formação acadêmica tradicional em cinema, o diretor buscou qualificação por meio de cursos livres, oficinas e estudos individuais antes de retomar a graduação em Estética e Teoria do Teatro.
“Foi quando realmente tive acesso a uma outra realidade muito diferente daquela em que eu estava inserido. Eu sempre estudei perto de casa. Quando fui trabalhar no banco, precisei me deslocar e conhecer outros lugares. Comecei a ir a palestras, exposições, teatro”, conta.
“Quando você está lá no alto do morro, a lógica é uma. A cultura é uma. A forma de lidar com a vida é uma. Quando desce e vai para o asfalto, percebe que alguma coisa muda”, descreve o diretor.
A estreia por trás das câmeras ocorreu com o curta-metragem “No Fim do Déjà-Vu”, obra que acompanha a jornada de um artista plástico negro em busca do filho desaparecido durante um festival de pipas. O filme aborda a espiritualidade negra e propõe alternativas econômicas e sociais à criminalidade. A produção iniciou a trajetória internacional com exibição em Nova York, nos Estados Unidos, onde venceu o prêmio de Melhor Curta-Metragem.
“Eu queria contar uma história sobre espiritualidade e sobre a minha própria relação com isso. A ficção permite que você conte a sua história de outra forma.”
“O filme foi exibido para um público que não conhecia aquela realidade. Eu me perguntava se eles entenderiam. E entenderam. Foi emocionante”, conclui.
Posteriormente, o projeto recebeu o prêmio de Melhor Diretor no Los Angeles Brazilian Film Festival. Antes de assumir a direção, o cineasta obteve projeção nacional na televisão ao integrar o elenco da telenovela “Malhação: Toda Forma de Amar”. Em 2024, o artista também recebeu o prêmio de Melhor Ator no Festival de Brasília pelo curta-metragem “E Seu Corpo é Belo”, focado nos bailes black da década de 1970.
Cinema Nacional
A inserção de realizadores de periferias no mercado audiovisual segue um histórico impulsionado por iniciativas consolidadas, como o grupo teatral Nós do Morro e o filme “Cidade de Deus”. De acordo com o panorama defendido pelo diretor, o atual momento do cinema nacional serve como vetor para a exportação de métodos técnicos e narrativas brasileiras complexas, reduzindo o espaço de estereótipos no mercado internacional.
O setor audiovisual brasileiro passa por um período de renovação criativa com foco em histórias originadas em territórios tradicionalmente marginais às telas. A expectativa de novos realizadores é que a diversificação de funções e temas ressignifique a identidade cultural do país no exterior. O fortalecimento dessas produções visa consolidar caminhos profissionais para novos talentos das comunidades urbanas.
