O debate global sobre igualdade de gênero, violência contra a mulher e liberdade religiosa ganha um novo e importante capítulo nos cinemas. A cineasta Carla Camurati acaba de estrear seu mais novo documentário, “Raízes do Sagrado Feminino”, em salas selecionadas do Rio de Janeiro e de São Paulo. A obra propõe uma profunda reflexão sobre como as grandes religiões ajudaram a moldar, ao longo dos séculos, o espaço ocupado pelas mulheres na sociedade.
Conhecida por dirigir o clássico Carlota Joaquina, Princesa do Brazil (1995), marco da Retomada do cinema brasileiro, Camurati retorna ao formato documental após Oito Presidentes, 1 Juramento. Desta vez, a diretora atravessa séculos de história para analisar as conexões entre espiritualidade, poder e desigualdade de gênero.
O Mosaico do Silenciamento Feminino
No longa-metragem, a diretora investiga de que forma os textos sagrados do Hinduísmo, Budismo, Judaísmo, Cristianismo e Islamismo influenciaram estruturas sociais e culturais historicamente marcadas pelo patriarcado.
Para isso, o documentário reúne um time de peso de intelectuais, incluindo:
- Monja Coen (líder budista)
- Nilton Bonder (rabino e escritor)
- Mary Del Priore (historiadora)
- Ivone Gebara (teóloga)
Segundo Camurati, o filme é o resultado de uma ampla investigação acadêmica e histórica. A intenção principal foi resgatar narrativas que foram modificadas ou completamente apagadas pelas interpretações tradicionais.
“O que a gente queria era iluminar o que, no percurso desses séculos, havia desaparecido ou sido mal entendido. Foi esse mosaico que a gente fez”, explica a cineasta.
Semelhanças no Patriarcado
Um dos pontos mais intrigantes da pesquisa, segundo a diretora, foi a descoberta de padrões idênticos em dogmas muito distantes geograficamente. O comportamento patriarcal e o silenciamento do chamado “sagrado feminino” mostraram-se universais.
“Foi a primeira coisa que me chamou atenção. Como existem hábitos, preconceitos e ações comuns entre religiões com doutrinas tão diferentes. No filme, isso ajuda a dar fluidez e compreensão para as pessoas”, revela Camurati.
Apesar da densidade do tema, o longa traz mensagens de emancipação. Uma das falas mais marcantes destacadas pela diretora pertence à teóloga Ivone Gebara, que dispara: “É de nós, mulheres, que nasceu a experiência da liberdade”.
O documentário também traz releituras contemporâneas de mitos clássicos. É o caso da personagem bíblica Eva, que no filme é desassociada da ideia tradicional de culpa e associada à busca pelo conhecimento. “Ela escolhe o fruto do conhecimento. É uma leitura muito bonita”, pontua a diretora.
Iluminar para Transformar
A produção faz questão de fugir do tom de confronto religioso ou da polarização. O objetivo central é compreender até que ponto as estruturas espirituais serviram para consolidar hierarquias de poder entre homens e mulheres, usando a história como ferramenta de mudança.
“Raízes do Sagrado Feminino não pretende dividir. Pretende iluminar. Porque compreender as raízes é o primeiro passo para transformar o futuro”, finaliza Carla Camurati.
O documentário já pode ser assistido nos cinemas de São Paulo e do Rio de Janeiro. Após a temporada de exibição nas telonas, o filme será lançado nas principais plataformas de streaming.
