O Brasil Futures Forum (BFF) reuniu especialistas de diferentes áreas no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, na última semana de agosto, para debater como ensinar jovens a imaginar futuros em um contexto de incertezas.
O evento teve como um dos pontos centrais o painel “O Papel da Educação na Reconstrução do Imaginário Social — Como ampliar nossa capacidade de imaginar, aprender e ensinar futuros em tempos de incerteza?”. A discussão abordou a chamada crise do imaginário entre parte da juventude brasileira.
Um dos pontos de partida do debate foi o estudo “Futurofobia à Futurotopia”, realizado com quase setecentos jovens brasileiros. Segundo os dados apresentados, 62% dos participantes enxergam o futuro como uma ameaça e 80% o associam à ansiedade. Ao mesmo tempo, quase 90% acreditam ser possível aprender a imaginar.
Para a Badauê, curadora editorial do evento, essa é uma das chaves para pensar novos futuros. Não basta ensinar a resolver problemas; é preciso ensinar a imaginar. E imaginar futuros melhores passa necessariamente por recuperar memórias, reconhecer territórios, valorizar diferentes formas de conhecimento e ampliar a capacidade de escutar aquilo que já foi dito, há séculos.
Marco Antonio Andreazzi, médico e gerente de pesquisas especiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), responsável pela Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), afirmou que os dados ajudam a dimensionar desafios ligados à saúde mental e aos hábitos dos jovens brasileiros.
“Quando a promessa de que a educação levará necessariamente a uma vida melhor deixa de se concretizar, a própria capacidade de projetar o futuro pode ser afetada”, disse Andreazzi.
A psicóloga, escritora e consultora Danielle Ferreira afirmou não existir uma única juventude brasileira. Segundo ela, fatores como raça, classe, gênero, sexualidade e território interferem diretamente nas possibilidades de sonhar e imaginar, o que torna essa capacidade desigualmente distribuída entre os jovens.
Fábio Scarano, professor titular de Ecologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e responsável pela Cátedra Unesco de Alfabetização em Futuros do Museu do Amanhã, defendeu no painel uma perspectiva que chamou de “antecipação regenerativa”, que aproxima ciência, arte e espiritualidade. Para ele, a imaginação é o campo de possibilidades para a criação de futuros.
Scarano também citou a narrativa yanomami da “A Queda do Céu”, de Davi Kopenawa e Bruce Albert, como exemplo de conhecimento ancestral que dialoga com debates contemporâneos sobre crise climática.
“São diferentes formas de dizer algo que a humanidade parece conhecer há muito tempo, mas que nem sempre consegue ouvir”, disse o professor.
Scarano analisa que vivemos em uma sociedade de pouca memória e baixa atenção, na qual a velocidade do cotidiano e a presença constante das tecnologias mantêm as pessoas permanentemente distraídas. Ao mesmo tempo, conhecimentos e experiências de outras gerações são frequentemente esquecidos em nome de um progresso que nem sempre considera aquilo que está sendo deixado para trás.
Para o professor da UFRJ, antecipar exige repertório. E repertório não nasce apenas do novo, mas também da capacidade de recuperar experiências, conhecimentos e modos de compreender o mundo acumulados ao longo da História.
“Olhar para o passado não significa voltar atrás, mas ampliar as ferramentas para reconhecer o presente e imaginar aquilo que ainda não existe”, observa.
É nessa perspectiva que a reflexão de Fábio Scarano se conecta à proposta da Badauê, quando a utopia, como ele cita, não precisa ser apenas um destino. Pode ser o caminho que começamos a construir quando conseguimos imaginar que outro futuro é possível.
O debate promovido pelo Brasil Futures Forum se insere em um campo de estudos sobre “alfabetização em futuros” (futures literacy), que discute a capacidade de indivíduos e sociedades de imaginar e planejar cenários futuros. A proposta tem ganhado espaço em instituições internacionais, como a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), e é hoje aplicada em programas educacionais e de pesquisa no Brasil.
