O documentário “Dragões”, dirigido pelo cineasta Miguel Antunes Ramos, foi selecionado para a mostra competitiva Première Brasil na 28ª edição do Festival do Rio. A produção utiliza mais de 4.000 vídeos publicados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro em plataformas digitais para analisar a construção de sua trajetória política e investigar as estratégias de comunicação utilizadas pela extrema-direita nas redes sociais. O evento cinematográfico ocorre entre os dias 1º e 11 de outubro.
A obra acompanha o percurso de Bolsonaro desde o período em que atuava como deputado federal até a tentativa de golpe de Estado de janeiro de 2023. O roteiro contrapõe esse material digital contemporâneo com registros de outros momentos históricos do país, estabelecendo paralelos sobre como o poder é representado visualmente no Brasil. Entre os elementos históricos analisados está a pintura “Independência ou Morte”, de Pedro Américo, concebida décadas após o evento de 1822 para consolidar uma versão heroica da declaração de autonomia nacional.
“Esse filme começou diante das mudanças profundas que o Brasil enfrentou a partir de 2018. Nesse processo, surgiu uma nova forma de fazer política através das imagens: uma produção aparentemente improvisada, tosca ou casual, mas que possuía estratégia, planejamento e organização. O filme nasce de um olhar para essa produção imagética buscando a levar a sério, e perguntar: o que se passa quando as imagens deixam de apenas representar o poder e passam a ser uma de suas principais formas de exercício?”, diz Miguel Ramos sobre suas motivações para realizar o filme.
O desenvolvimento do projeto consumiu quase dez anos de pesquisa sobre as representações visuais do poder político no país, abrangendo desde os regimes ditatoriais até administrações recentes. Segundo o diretor, a intenção do filme é examinar uma produção estética aparentemente tosca ou casual, mas que responde a planejamentos organizados e interfere diretamente nas relações de trabalho e na percepção social da realidade.
“Quando Miguel nos procurou, há quase uma década, para fazer este filme, eu não conseguia enxergar as articulações que ele via naquele material do Bolsonaro. Ao longo dos anos, ele foi nos mostrando os pontos de conexão, revelando como aquelas imagens, que à primeira vista pareciam espontâneas e difusas, partiam de uma construção muito precisa e deliberada. Durante o roteiro e a montagem, Miguel foi revelando a lógica por trás das imagens e nos fazendo perceber que o poder estava sendo construído diante dos nossos olhos.” diz Julia Murat, da Esquina Filmes.
“Dragões chega ao público no calor de um momento histórico em que essa reflexão se tornou urgente. No Brasil e em diferentes partes do mundo, a extrema-direita transformou as redes sociais em um espaço central de disputa política, mudando não apenas a forma de se comunicar, mas também de construir vínculos e mobilizar eleitores. Entender como essas imagens e estratégias produzem identificação e poder é fundamental para que possamos construir formas efetivas de enfrentá-las”, afirma Leonardo Mecchi, da Enquadramento Produções.
O filme foi realizado através de recursos do Fundo Setorial do Audiovisual, em parceria com o Canal Curta!, e será posteriormente distribuído em salas de cinema pela Descoloniza Filmes. A Première Brasil, seção onde o filme fará sua estreia, é considerada a principal vitrine para o cinema nacional dentro do circuito de festivais da América Latina. Na edição de 2026, a mostra selecionou 101 produções entre as quase 1.500 obras inscritas para as exibições na capital fluminense.
