Nos últimos anos, o conceito de cidades caminháveis tem ganhado destaque no Brasil e no mundo. Essas cidades, projetadas para facilitar a locomoção a pé, não apenas promovem a saúde e o bem-estar, mas também atuam como catalisadoras de interações sociais e de um convívio humano mais rico.
O Que São Cidades Caminháveis?
Cidades caminháveis são ambientes urbanos planejados com infraestrutura adequada para pedestres, incluindo calçadas amplas, áreas verdes, praças e acessibilidade. O conceito vai além da simples mobilidade: envolve a criação de espaços que incentivam o social, o lazer e a interação comunitária.
Benefícios para a Saúde
Estudos mostram que viver em uma cidade caminhável pode reduzir significativamente os riscos de doenças crônicas, como obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares. A prática de caminhar não só promove o condicionamento físico, mas também melhora a saúde mental, reduzindo os níveis de estresse e ansiedade. Além disso, a caminhada regular pode aumentar a expectativa de vida.
Interação Social e Comunidade
Um dos aspectos mais enriquecedores das cidades caminháveis é a promoção do convívio social. Quando as pessoas substituem o carro pela caminhada, elas têm mais oportunidades de se encontrar, conversar e interagir. Essa dinâmica cria um senso de pertencimento e comunidade, fundamental para a coesão social.
Sustentabilidade e Redução do Trânsito
Cidades caminháveis também desempenham um papel crucial na sustentabilidade urbana. Ao promover o uso de meios de transporte não motorizados, como andar a pé ou de bicicleta, as cidades conseguem reduzir a emissão de poluentes, melhorar a qualidade do ar e diminuir a congestão de trânsito. Isso resulta em um ambiente mais saudável tanto para os habitantes quanto para o meio ambiente.
Curitiba, a capital caminhável do Brasil
A capital do Paraná é conhecida por seu sistema de transporte público eficiente e suas largas calçadas, que facilitam a mobilidade a pé. Uma pesquisa da UFPR (Universidade Federal do Paraná) avaliou a caminhabilidade em cinco trajetos da cidade: entre o Parque Barigui, Praça da Ucrânia, Praça Osório, Passeio Público e Bosque do Papa.
Para transformar percepções em dados concretos, o projeto utiliza a ferramenta iCam, do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP). O método é composto por 15 indicadores agrupados em categorias (ambiente, atração, calçadas, mobilidade, segurança pública e segurança viária). As avaliações priorizam rotas de deslocamento de pedestres sugeridas pelo aplicativo Google Maps.
Os dados, que serão disponibilizados para os órgãos públicos municipais, já apontam um retrato complexo da experiência do pedestre em Curitiba. Por um lado, há aspectos positivos que tornam o caminhar mais agradável, como trechos mais convidativos aos pedestres, com a presença de arte nas ruas e fachadas atrativas.

A presença de árvores que proporcionam sombra também foram destacadas como pontos fortes. No entanto, as mesmas árvores comprometem a integridade das calçadas, o que levanta uma discussão sobre a titularidade das calçadas e a responsabilidade do poder público. A análise das calçadas inclui desde o estado físico até aspectos como segurança e conforto do trajeto.
O melhor percurso avaliado foi entre a Praça Osório e o Passeio Público. Já o pior ficou entre o Parque Barigui e a Praça da Ucrânia, com destaque negativo para a segurança pública e a segurança no trânsito.
Outros desafios se tornaram evidentes durante as coletas em campo. “Uma das observações que mais me impactou foi o tempo de travessia nos semáforos para pedestres”, relata a estudante Rafaela Righi. “Em alguns pontos onde fizemos amostragens, o tempo era de apenas 13 a 15 segundos, mesmo em travessias relativamente longas. Isso nos faz refletir sobre a dificuldade enfrentada por pessoas com mobilidade reduzida, que muitas vezes não conseguem concluir a travessia com segurança nesse intervalo de tempo”.
A coordenadora do projeto e professora do Departamento de Engenharia Ambiental da UFPR, Joice Kuritza Denck Gonçalves, ressalta que a infraestrutura urbana é determinante para a qualidade da experiência de quem caminha. “Elementos como largura e conservação das calçadas, sinalização adequada, iluminação, segurança e presença de áreas de descanso fazem toda a diferença. Quando esses aspectos são negligenciados, o deslocamento a pé se torna desconfortável, inseguro ou até inviável para parte da população”.
Melhorias devem focar material das calçadas, iluminação e câmeras de segurança
Por meio da avaliação detalhada da caminhabilidade, com determinação do índice em áreas estratégicas e com identificação de pontos fortes e fracos, a equipe debate propostas concretas de intervenções urbanas para melhorar as condições de segurança, acessibilidade, conforto, atratividade, conectividade e conveniência para pedestres.
A necessidade de revisão dos materiais das calçadas (considerando custo, resistência e permeabilidade) e uso de iluminação adequada e câmeras de segurança já são apontados como prioridades pela equipe.
“A implementação de medidas para aumentar a caminhabilidade resultará em uma cidade mais segura e inclusiva para os pedestres. Isso incentivará mais pessoas a caminhar, reduzindo a dependência de carros e, consequentemente, os níveis de poluição do ar e sonora”, afirma a docente da UFPR. Ao contribuir para o combate ao sedentarismo, os benefícios também se estendem à saúde pública.
Com os relatórios técnicos em fase de produção, o próximo passo da equipe é intensificar o diálogo com os órgãos públicos municipais e realizar ações de sensibilização nos parques e praças estudados. “Em uma cidade como Curitiba, com tantos espaços verdes e uma população que valoriza a mobilidade, investir em infraestrutura que priorize o pedestre é essencial para tornar a cidade mais inclusiva, acessível e sustentável”, destaca Joice.
Neste ano, o projeto da UFPR conquistou a primeira colocação na modalidade “civil” do Prêmio CREA-PR de extensão universitária.
Desafios e Oportunidades
Apesar dos benefícios, a realidade das cidades brasileiras ainda enfrenta desafios significativos. A falta de infraestrutura adequada, a violência urbana e a cultura do automóvel são barreiras que dificultam a implementação de cidades mais caminháveis. No entanto, iniciativas de planejamento urbano consciente e engajamento da comunidade podem transformar esse cenário.
Cidades caminháveis não são apenas uma tendência; são uma necessidade para um futuro mais saudável, sustentável e socialmente integrador. Ao investir em ambientes que priorizam a caminhada, as cidades podem fomentar uma comunidade mais unida, saudável e feliz. O caminho para um convívio humano mais rico começa com um simples passo: caminhar.
Informações do https://ciencia.ufpr.br/portal/
