Nesta noite de sábado (1º), o Auditório Kadiwéu, no Centro de Convenções de Bonito (MS), recebe a cerimônia de encerramento da 4ª edição do Bonito CineSur, Festival de Cinema Sul-Americano. A partir das 20h, os apresentadores Paulo Betti e Valentina Herszage anunciam os vencedores das Mostras Competitivas de Longa e Curta-Metragem Ambiental — 12 filmes de sete países que, ao longo da última semana, transformaram o auditório na cidade mato-grossense mais conhecida pelo ecoturismo em palco de debate sobre as principais ameaças ambientais do continente. A noite também entrega o Troféu Pantanal ao indigenista e cineasta franco-brasileiro Vincent Carelli, pelo conjunto da obra.
Os resultados ainda não foram anunciados no momento da publicação desta reportagem. O que já se sabe é o caminho percorrido para se chegar até aqui: seis dias de exibições gratuitas que colocaram a pauta ambiental — não por acaso, na semana em que se celebrou o Dia Mundial da Conservação da Natureza, em 28 de julho — no centro de um festival cuja identidade sempre esteve ligada ao cinema sul-americano.
Um festival que fez da urgência ambiental sua marca
Criado há quatro edições, o Bonito CineSur soma neste ano uma competição dedicada especificamente a filmes ambientais, reunindo Brasil, Argentina, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Uruguai em 12 produções exibidas entre os dias 26 e 31 de julho, no Auditório Kadiwéu. Para a documentarista, fotógrafa e jornalista Elis Regina, curadora das Mostras Ambientais, a escolha não é apenas editorial. “O Bonito CineSur é um festival voltado para o cinema sul-americano, então abrir espaço para essas narrativas é uma escolha política e artística que reflete a identidade do nosso continente”, afirmou, destacando que a presença desses filmes amplia o debate sobre os conflitos territoriais e a relação dos povos originários com a natureza.

A programação funcionou como um mapa dos pontos de tensão ambiental na América do Sul. A mostra de longas abriu no dia 26 com “Água Invadida”, documentário uruguaio de Carolina Sosa sobre pesca ilegal, e seguiu, nos dias seguintes, por “El Camino del Agua” (Peru), sobre mulheres que resistem a um projeto de mineração, e “Propiedad Privada Prohibido Pasar” (Argentina), sobre disputas por terra na Patagônia. Na quarta-feira (29), o veterano Jorge Bodanzky apresentou pessoalmente “Um Olhar Inquieto: O Cinema de Jorge Bodanzky”, que recupera imagens que ele próprio captou em 1973 sobrevoando Aripuanã (MT) a serviço da TV alemã — um encontro com indígenas isolados hoje preservado no acervo do Instituto Moreira Salles — para costurar meio século de registros sobre a Amazônia. “A questão ambiental sempre reflete as questões da sociedade e a questão ambiental virou a mais importante hoje”, disse o cineasta, que soma 50 anos de carreira voltada ao tema. “Apesar de ter visto poucas mudanças desde que comecei a gravar sobre, tenho a confiança de que o cinema é fundamental para gerar consciência e impulsionar a tomada de posições.”

Na quinta (30), foi a vez de “Mundurukuyü — A Floresta das Mulheres-Peixe”, dirigido por Aldira Akay, Beka Munduruku e Ricélia Akay, que filma as margens do Tapajós a partir da mitologia Munduruku. A mostra de longas se encerrou nesta sexta (31) com o colombiano “Páramos II El Origen”, de Alejandro Calderón, sobre o derretimento das geleiras andinas e os conflitos socioambientais na Colômbia.
Em paralelo, a Mostra Competitiva de Curta-Metragem Ambiental percorreu temas igualmente urgentes: as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul, em “À Margem do Fim” (Felipe Beltrame); a memória do acidente radioativo do césio-137, em “Lourdes e Leide” (Angelo Lima); a contaminação de bacias hídricas na Bolívia, em “Uma Uñjirinaka Cuidadorxs del Agua”; a ameaça às vicunhas selvagens diante da exploração de lítio, em “Entre la Sal y el Cielo” (Felipe Rosa); os hipopótamos deixados por Pablo Escobar como legado ambiental descontrolado, em “Hipopótamos, El Arca de Escobar” (Alejandro Calderón); e a resistência de mulheres à extração de petróleo na Amazônia equatoriana, em “Buen Vivir: Ñutse Canseye” (Zoé Nathalie Kugler), que fechou a mostra nesta sexta.

O que está em disputa esta noite
Os vencedores das mostras ambientais serão definidos por um júri formado pelo próprio Vincent Carelli, pela produtora e roteirista Minom Pinho e pela escritora e curadora Olinda Tupinambá — além do voto do público, que acompanhou as sessões ao longo da semana. A entrega do Troféu Pantanal a Carelli, no entanto, já está definida: reconhece uma trajetória de décadas dedicada ao cinema indígena e à causa dos povos originários, área em que o cineasta é referência nacional.

O festival, realizado de 24 de julho a 1º de agosto pela Associação Amigos do Cinema e da Cultura (AACIC) com recursos da Lei Rouanet e do Ministério da Cultura, tem patrocínio master do Banco do Brasil e da Petrobras, patrocínio da Caixa Econômica, da EMGEA, do Sesc MS e da Fecomércio MS, e apoio da Prefeitura de Bonito, da FUNDTUR e do Governo de Mato Grosso do Sul.

Há uma coincidência que a curadoria do festival não deixou passar despercebida: Bonito é conhecida nacionalmente por suas águas cristalinas e seu ecoturismo — um município cuja economia depende diretamente da conservação que os filmes exibidos esta semana, de formas muito distintas, também defendem.
