Antes de qualquer modelo pisar na passarela, o AfroExplo começa nas mãos de quem corta tecido e costura ponto a ponto. É essa a lógica por trás da edição especial de 2026 do projeto, que o Instituto Cultural Congo Nya (ICCN) retoma em São Sebastião, região administrativa do Distrito Federal, depois de uma pausa de dez anos motivada, segundo a organização, pela dificuldade de captar recursos.
A partir de 3 de agosto, abrem as inscrições para modelos voluntários que vão desfilar em novembro, durante a programação do Mês da Consciência Negra. Mas antes disso, entre 12 de agosto e os três meses seguintes, o instituto oferece oficinas gratuitas de percussão e de modelagem, corte e costura — a fase de capacitação que, segundo os organizadores, é o verdadeiro coração do projeto, ainda que menos visível do que a passarela que a sucede.
Um projeto de 23 anos que aprendeu a se reinventar
O AfroExplo nasceu em 2002, um ano antes da fundação formal do próprio Instituto Cultural Congo Nya, organização da sociedade civil que atua em São Sebastião desde 2003 com projetos de educação, artes e economia criativa voltados à valorização da cultura afrodescendente. A 7ª edição, realizada em 2016 sob o tema “Acenda sua Chama, Tanzânia”, homenageou o país africano com peças e estampas inspiradas em sua estética — e, depois dela, o projeto ficou dez anos sem nova edição.
O retorno, segundo a produtora Margot Ribeiro, chega deliberadamente redimensionado. “Estamos retornando com uma edição especial, menor em dimensão, mas abrangente em sua proposta. É uma edição que celebra a ancestralidade africana como um todo, valoriza essa estética ancestral e a moda autoral, fomentando também a economia criativa em São Sebastião”, afirma.
Capacitação como cadeia produtiva, não apenas oficina
A diferença entre esta edição e um desfile de moda convencional está no que acontece antes dele. As aulas de percussão ocorrem às quintas-feiras, a partir das 19h; o curso de modelagem, corte e costura tem encontros às segundas e quartas, das 19h às 22h — ambos na sede do instituto, com vagas limitadas e inscrições até 9 de agosto. A proposta declarada vai além de ensinar uma técnica: é ampliar a cadeia produtiva de moda dentro do próprio território, formando mão de obra que poderá seguir atuando no setor depois que as luzes do desfile se apagarem. As peças que efetivamente vão compor a coleção do desfile, vale registrar, serão produzidas por profissionais contratados — as oficinas formam pessoas para a cadeia produtiva local, não necessariamente para vestir o desfile deste ano.
Para Sherwin Morris, diretor executivo do ICCN, o projeto busca unir essas frentes em um só palco. “A ideia é fazer do palco um espaço onde a música, a moda e a expressão artística se encontram para contar histórias de pertencimento, identidade e resistência”, resume.
Quem pode desfilar
O chamamento de modelos, com inscrições entre 3 e 14 de agosto, é dirigido a jovens a partir de 14 anos, homens e mulheres afrodescendentes de fenótipo africano característico e cabelos naturais — critério que os organizadores descrevem como uma forma de valorizar a pluralidade e a estética negra na passarela. Não é exigida experiência prévia. A seleção e a tiragem de medidas acontecem em 15 de agosto, às 14h, na sede do instituto.
Entre a primeira oficina, em agosto, e o espetáculo de encerramento, em novembro, o AfroExplo aposta que o tempo mais longo de maturação — três meses de formação antes de qualquer luz de passarela — é o que diferencia esta edição de um evento de moda pontual: a ideia é que o público veja, em novembro, o resultado de uma cadeia que começou muito antes, nas mãos de quem aprendeu a cortar e costurar durante o inverno.
