O cinema nacional vive um paradoxo: embora a percepção pública sobre a qualidade das produções nacionais seja amplamente positiva, a falta de planejamento na comunicação e o custo do ingresso impedem que os filmes lotem as salas.
É o que revela a pesquisa inédita “Cinema brasileiro: o caminho de volta às salas”, realizada pela consultoria Casa Mundo Latam em parceria com o RioMarket (área de negócios do Festival do Rio). O estudo foi apresentado no Armazém da Utopia, no Rio de Janeiro.
O Gargalo: descoberta tardia
De acordo com os dados quantitativos e qualitativos colhidos pelo levantamento, 36% dos entrevistados só descobrem os lançamentos nacionais quando estes já estão em cartaz, perto de sair das salas ou disponíveis diretamente nas plataformas de streaming.

Outros 31% ficam sabendo dos longas-metragens apenas algumas semanas ou poucos dias antes da estreia. Apenas 23% tomam conhecimento das produções com vários meses de antecedência — intervalo considerado ideal para que o espectador organize sua agenda, companhia e orçamento.
“O cinema brasileiro precisa de um planejamento de comunicação que comece muito antes da estreia. Isso envolve se aproximar das marcas, construir parcerias e programar collabs que ampliem a presença dos filmes no cotidiano e gerem conversa”, afirma Adriana Hack, fundadora e diretora executiva da Casa Mundo Latam.
Reconhecimento Público vs. Bilheteria
O estudo aponta um claro descompasso entre o orgulho pelo produto nacional e o hábito de consumo nas salas de cinema:
- 77% dos entrevistados identificam uma fase especialmente positiva para o cinema brasileiro.
- Apenas 26% dos participantes citaram ao menos uma produção nacional entre os últimos filmes que assistiram na tela grande.
- 25% da amostra não conseguiu se recordar de nenhum filme brasileiro assistido recentemente em qualquer plataforma (cinema, streaming ou TV).
Entre os títulos mais lembrados e associados à boa fase atual do audiovisual do país, destacam-se os longas “Ainda Estou Aqui” (12,5% das citações), “O Auto da Compadecida 2” (12,1%), “O Agente Secreto” (12,1%), “Homem com H” (9,2%) e “Minha Melhor Amiga” (8,8%).
Barreiras de acesso: preços e rotina
A ida ao cinema concorre diretamente com o streaming e com o cansaço do cotidiano. Para 42,1% dos brasileiros, o principal motivo para ir a uma sala de exibição é simplesmente “sair de casa ou fazer um programa de lazer”. No entanto, os custos associados pesam no bolso:
- Preço do ingresso: Apontado por 42,1% como a maior barreira de frequência.
- Alimentação (comida e bebida): Citado por 30% dos entrevistados.
- Falta de tempo e horários: Somam 25,4% e 22,5%, respectivamente.
Tendência Premium
Como contrapartida às barreiras financeiras, a pesquisa identificou que o público valoriza a premiunização da experiência. Tecnologias especiais como IMAX, 3D, 4DX e som imersivo atraem 30% dos cinéfilos, enquanto o conforto das salas (poltronas e climatização) é decisivo para 27,1%. O dado reforça a busca do consumidor moderno por alívio do desgaste diário por meio de momentos de alto conforto.
