Em um quarto de século de existência, o Prêmio Grande Otelo nunca tinha precisado de um empate para decidir seu prêmio mais importante. Na noite de terça-feira (4), no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, essa história mudou: “Manas”, de Marianna Brennand, e “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, dividiram o troféu de Melhor Filme na 25ª edição da premiação organizada pela Academia Brasileira de Cinema — considerada a principal honraria do audiovisual nacional.
O ineditismo não é pouca coisa num prêmio que já consagrou, ao longo de 25 edições, praticamente toda uma geração de cineastas brasileiros. E o empate ganha um segundo nível de interesse quando se olha para o histórico recente dos dois filmes: no ano passado, “Manas” e “O Agente Secreto” disputaram diretamente a vaga que representaria o Brasil na corrida pelo Oscar de Melhor Filme Internacional — vaga que acabou ficando com “O Agente Secreto”. Na noite de terça, os dois voltaram a se encontrar, desta vez sem departir vencedor único.
Números opostos, mesmo troféu
Apesar de liderar isolado as indicações da noite, com 18 ao todo, “O Agente Secreto” terminou a cerimônia com quatro estatuetas: Melhor Filme, Direção de Fotografia, Direção de Arte e Efeitos Visuais. “Manas” converteu menos indicações em mais prêmios — cinco no total —, incluindo Melhor Direção para Marianna Brennand, Melhor Roteiro Original, Melhor Montagem de Ficção e Melhor Atriz Coadjuvante para Dira Paes.

A distribuição diz algo sobre como a Academia Brasileira de Cinema leu os dois filmes: reconheceu em “O Agente Secreto” sobretudo a envergadura técnica de uma produção que já circulou o mundo, e em “Manas” a força autoral de direção e roteiro. Juntas, as duas leituras não competiram — empataram.
O detalhe que o empate quase ofuscou
Nem tudo na noite girou em torno do empate na categoria mais nobre. O maior vencedor absoluto da cerimônia, em número de troféus, foi um terceiro filme: “Homem com H”, cinebiografia de Ney Matogrosso dirigida por Esmir Filho, que levou seis prêmios — entre eles Melhor Ator para Jesuíta Barbosa, o Prêmio do Público, Melhor Trilha Sonora, Figurino, Maquiagem e Som. É um lembrete de que, em premiações de cinema, a categoria de Melhor Filme e o total de estatuetas da noite nem sempre contam a mesma história: um pode consagrar prestígio autoral, o outro pode revelar o filme que mais conquistou o júri técnico e o público ao mesmo tempo.
A cerimônia teve ainda Petra Costa premiada com “Apocalipse nos Trópicos” (Melhor Documentário e Melhor Montagem de Documentário), Daniel Rezende como Melhor Roteiro Adaptado por “O Filho de Mil Homens” e Denise Weinberg eleita Melhor Atriz por “O Último Azul”. A abertura do evento teve o próprio Ney Matogrosso interpretando “O Tempo Não Para”, de Cazuza, com apresentação de Marieta Severo e Silvia Buarque — mãe e filha no comando da noite.
Um prêmio que ganhou lugar fixo no calendário do Rio
À margem das estatuetas, a noite teve também um anúncio institucional: o prefeito do Rio, Eduardo Cavaliere, confirmou a inclusão permanente do Prêmio Grande Otelo no calendário oficial da cidade — reconhecimento simbólico para uma premiação que, antes de se chamar Grande Otelo, era conhecida como Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, e que chega aos 25 anos justamente na edição em que reescreveu sua própria regra de decidir um único vencedor.
Para “O Agente Secreto”, o troféu dividido em casa chega como capítulo brasileiro de uma temporada internacional expressiva: o longa estreou no Festival de Cannes de 2025, onde Wagner Moura se tornou o primeiro brasileiro a vencer o prêmio de melhor ator do festival, e a produção somou, em janeiro deste ano, dois Globos de Ouro — melhor filme em língua não inglesa e melhor ator em filme de drama, novamente para Moura. Para os dois times vencedores, o reconhecimento em solo nacional teve um peso à parte: mesmo quem já havia circulado os principais festivais do mundo destacou a satisfação de ser validado, desta vez, pelo público e pela crítica dentro do próprio país.
Confira a lista de premiados
Melhor filme de ficção
- Homem com H, de Esmir Filho
- Manas, de Marianna Brennand — VENCEDOR (EMPATE)
- O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho — VENCEDOR (EMPATE)
- O Filho de Mil Homens, de Daniel Rezende
- O Último Azul, de Gabriel Mascaro
Melhor filme de comédia
- Agentes Muito Especiais, de Pedro Antonio
- C.I.C – Central de Inteligência Cearense, de Halder Gomes
- Sexa, de Gloria Pires
- Sonhar com os Leões, de Paolo Marinou-Blanco
- Uma Mulher Sem Filtro, de Arthur Fontes
- Velhos Bandidos, de Claudio Torres — VENCEDOR
Melhor documentário
- A Queda do Céu, de Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha
- Apocalipse nos Trópicos, de Petra Costa — VENCEDOR
- Hora do Recreio, de Lucia Murat
- Mambembe, de Fabio Meira
- Ritas, de Oswaldo Santana e Karen Harley
Melhor filme infantil
- Narciso, de Jeferson De
- O Diário de Pilar na Amazônia, de Eduardo Vaisman e Rodrigo Van Der Put — VENCEDOR
- O Último Episódio, de Maurilio Martins
- Os Dragões, de Gustavo Spolidoro
- Thiago e Ísis e os Biomas do Brasil, de João Amorim
Melhor animação
- Authentic Games no Império Desconectado, de Bruno Murtinho
- Eu e Meu Avô Nihonjin, de Celia Catunda
- Nosso Louco Amor, de Nelson Botter Jr.
- Tainá e os Guardiões da Amazônia – Em Busca da Flecha Azul, de Alê Camargo e Jordan Nugem — VENCEDOR
Melhor filme ibero-americano
- Belén (Argentina) — VENCEDOR (EMPATE)
- O Olhar Misterioso do Flamingo (Chile)
- O Riso e a Faca (Portugal) — VENCEDOR (EMPATE)
- Pepe (República Dominicana)
- Um Poeta (Colômbia)
Melhor direção
- Daniel Rezende — O Filho de Mil Homens
- Esmir Filho — Homem com H
- Gabriel Mascaro — O Último Azul
- Kleber Mendonça Filho — O Agente Secreto
- Marianna Brennand — Manas — VENCEDORA
Melhor primeira direção de longa-metragem
- Douglas Soares — Papagaios
- Gloria Pires — Sexa
- Júlia Jordão — Perfeitos Desconhecidos
- Márcia Faria — A Procura de Martina
- Rafaela Camelo — A Natureza das Coisas Invisíveis — VENCEDORA
Melhor atriz de longa-metragem
- Camila Pitanga — Malês
- Carolina Dieckmann — (Des)controle
- Denise Weinberg — O Último Azul — VENCEDORA
- Jamilli Correa — Manas
- Tânia Maria — O Agente Secreto
Melhor ator de longa-metragem
- Antonio Pitanga — Malês
- Ary Fontoura — Velhos Bandidos
- Irandhir Santos — Os Enforcados
- Jesuíta Barbosa — Homem com H — VENCEDOR
- Rodrigo Santoro — O Filho de Mil Homens
- Wagner Moura — O Agente Secreto
Melhor atriz coadjuvante de longa-metragem
- Alice Carvalho — O Agente Secreto
- Camila Márdila — A Natureza das Coisas Invisíveis
- Dira Paes — Manas — VENCEDORA
- Grace Passô — O Filho de Mil Homens
- Hermila Guedes — O Agente Secreto
Melhor ator coadjuvante de longa-metragem
- Adanilo — O Último Azul
- Alejandro Claveaux — Ruas da Glória
- Augusto Madeira — Os Enforcados
- Carlos Francisco — O Agente Secreto
- Gabriel Leone — O Agente Secreto
- Robério Diogenes — O Agente Secreto
- Rodrigo Santoro — O Último Azul — VENCEDOR
- Rômulo Braga — Manas
Melhor roteiro original
- A Melhor Mãe do Mundo
- Homem com H
- Manas — VENCEDOR
- O Último Azul
- O Agente Secreto
- A Natureza das Coisas Invisíveis
Melhor roteiro adaptado
- Barba Ensopada de Sangue
- Cinco Tipos de Medo
- O Filho de Mil Homens — VENCEDOR
- A Queda do Céu
- Enterre Seus Mortos
- O Advogado de Deus
Melhor direção de fotografia
- Azul Serra, ABC — Homem com H
- Azul Serra, ABC — O Filho de Mil Homens
- Evgenia Alexandrova — O Agente Secreto — VENCEDORA
- Guillermo Garza — O Último Azul
- Pierre de Kerchove — Manas
Melhor direção de arte
- Dayse Barreto — O Último Azul
- Dina Salem Levy — Um Lobo Entre os Cisnes
- Marcos Pedroso — Manas
- Thales Junqueira — Homem com H
- Thales Junqueira — O Agente Secreto — VENCEDOR
Melhor figurino
- Gabriella Marra — Homem com H — VENCEDORA
- Gabriella Marra — O Último Azul
- Kika Lopes — Manas
- Manuela Mello — O Filho de Mil Homens
- Rita Azevedo — O Agente Secreto
- Rô Nascimento — Malês
Melhor maquiagem
- Andrea Tristão — Barba Ensopada de Sangue
- Juliana Bolze — O Último Azul
- Marisa Amenta — O Agente Secreto
- Martín Macías Trujillo — Homem com H — VENCEDOR
- Martín Macías Trujillo — O Filho de Mil Homens
Melhor montagem de ficção
- Bruno Bini — Cinco Tipos de Medo
- Eduardo Serrano e Matheus Farias — O Agente Secreto
- Germano de Oliveira, EDT — Homem com H
- Isabela Monteiro de Castro — Manas — VENCEDORA
- Marcelo Junqueira, AMC — O Filho de Mil Homens
Melhor montagem de documentário
- André Felipe Silva e João Wainer — Zico – O Samurai de Quintino
- Cristina Amaral — Ecos do Teatro Experimental do Negro
- David Barker, Tina Baz, Nels Bangerter, Jordana Berg, Victor Miaciro e Eduardo Gripa — Apocalipse nos Trópicos — VENCEDOR
- Fabio Meira, Juliano Castro e Affonso Uchôa — Mambembe
- Jordana Berg — Cazuza, Boas Novas
- Oswaldo Santana, AMC — Ritas
Melhor efeito visual
- Alexandre Boiron, Luuk Meijer e David van Heeswijk — O Agente Secreto — VENCEDOR
- Claudio Peralta — O Diário de Pilar na Amazônia
- Eduardo Kurt, Magdalena Maia, Sofia Sussekind, Beatriz Paixão e Vandré Huppes — O Último Azul
- Juliano Storchi — O Filho de Mil Homens
- Massao Asaga — Homem com H
Melhor som
- Ana Luiza Penna, Martín Grignaschi e Armando Torres Jr., ABC — Homem com H — VENCEDOR
- Lia Camargo, ABC, Toco Cerqueira e Alan Zilli, MPSE — O Filho de Mil Homens
- Liliana Villaseñor, Heverson Batista, María Alejandra Rojas, Arturo Salazar RB e Vincent Sinceretti — O Último Azul
- Pedro Moreira, Moabe Filho, Tijn Hazen e Cyril Holtz — O Agente Secreto
- Valéria Ferro, Miriam Biderman, ABC, Ricardo Reis, ABC e Armando Torres Jr., ABC — Manas
Melhor trilha sonora
- André Abujamra e George Nahssen — A Melhor Mãe do Mundo
- Antonio Pinto e Barulhista — Malês
- Fabio Góes — O Filho de Mil Homens
- Guilherme Amabis, Mariana Amabis e Rica Amabis — Homem com H — VENCEDOR
- Tomaz Alves Souza e Mateus Alves — O Agente Secreto
Melhor série
- Ângela Diniz: Assassinada e Condenada
- Beleza Fatal
- Cangaço Novo (2ª temporada)
- Emergência Radioativa
- Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente — VENCEDOR
Melhor atriz em série
- Adriana Esteves — Os Outros
- Alice Carvalho — Cangaço Novo — VENCEDORA
- Bruna Linzmeyer — Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente
- Camila Pitanga — Beleza Fatal
- Marjorie Estiano — Ângela Diniz: Assassinada e Condenada
- Thainá Duarte — Cangaço Novo
Melhor ator em série
- Allan Souza Lima — Cangaço Novo
- Chico Díaz — Os Donos do Jogo
- Johnny Massaro — Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente — VENCEDOR
- Johnny Massaro — Emergência Radioativa
- Ravel Andrade — Raul Seixas – Eu Sou
Melhor série de documentário
- A Mulher da Casa Abandonada
- Caçador de Marajás — VENCEDOR
- Cazuza: Além da Música
- Chico Anysio – Um Homem à Procura de um Personagem
- Congonhas: Tragédia Anunciada
- O Testamento: O Segredo de Anita Harley
Melhor série de animação
- As Aventuras de Tita
- Esquadrão do Mar Azul (2ª temporada)
- Esse É o Bicho! (2ª temporada)
- Gnaks!
- O Mundo Sem Filtro de Any Malu
- Osmar, a Primeira Fatia do Pão de Forma (3ª temporada) — VENCEDOR
- Senninha na Pista Maluca (3ª temporada)
Melhor curta de ficção
- Amarela, de André Hayato Saito — VENCEDOR
- Arame Farpado, de Gustavo de Carvalho
- Boiuna, de Adriana de Faria
- Klaustrofobia, de João Londres
- Peixe Morto, de João Fontenele
- Presépio, de Felipe Bibian
Melhor curta de documentário
- Cartas pela Paz, de Mariana Reade, Thays Acaiabe e Patrick Zeiger
- Conselho, de Alice Riff
- Filme sem Querer, de Lincoln Péricles
- Replika, de Piratá Waurá e Heloisa Passos
- Sebastiana, de Pedro de Alencar — VENCEDOR
Melhor curta de animação
- A Tragédia do Lobo-Guará, de Kimberly Palermo — VENCEDOR
- Como Nasce um Rio, de Luma Flôres
- Mãe da Manhã, de Clara Trevisan
- Safo, de Rosana Urbes
- Seu Vô e a Baleia, de Mariana Elisabetsky
- Uma Menina, Um Rio, de Renata Martins Alvarez
