Por Laís Malek
Em 1001 Frames, a diretora Mehrnoush Alia propõe uma forte reflexão ao virar a câmera para os espaços ocultos de um set de filmagem. A releitura do clássico “As Mil e Uma Noites” traz atrizes que disputam o papel de Sherazade na produção. A cineasta marcou presença no 27º Festival do Rio para divulgar o filme, que faz parte da mostra Expectativa.
Em seu primeiro longa, a diretora iraniana escolheu seu país natal para ambientar o filme. Na trama, as atrizes começam a perceber, ao longo do processo de audição, que o diretor — interpretado por seu companheiro, Mohammad Aghebati — tem intenções menos artísticas e mais predatórias em relação a elas. Enquanto o desconforto cresce dentro do set, aumenta também a vontade de resistir à opressão, uma realidade conhecida das mulheres no Irã, e em todo o globo.
Em entrevista, Alia falou sobre a inspiração para o longa, o processo de filmagens e distribuição, e traçou perfis sobre o cinema iraniano e o papel da mulher dentro dele.
O filme expõe situações de assédio dentro da indústria cinematográfica, uma situação que, infelizmente, é comum para muitas mulheres no audiovisual. O que te motivou a contar essa história?.
Mehrnoush Alia: Quando eu era mais nova, tinha uma amiga linda, talentosa, cheia de vida, que queria ser atriz. Mas ela percebeu que precisaria fazer muito mais do que atuar bem para conseguir papéis, e desistiu do sonho depois de receber convites desconfortáveis. Ela ficou muito deprimida, foi como se tivesse morrido ali, e isso me marcou profundamente. Quando fui estudar cinema nos EUA, vi a posição de poder que um diretor pode ter sobre atores inexperientes e resolvi explorar essas dinâmicas, mostrando a tensão entre vulnerabilidade e resistência.

As Mil e Uma Noites são uma história conhecida universalmente. Como esse clássico se incorporou à ideia do filme?
MA: Na faculdade, vi como o processo artístico exige que as pessoas se exponham, compartilhando histórias pessoais, muitas vezes em detrimento do próprio emocional. Isso me fez pensar em Sherazade, que contava histórias para sobreviver, e como o papel da mulher na narrativa muitas vezes é definido pelo olhar masculino. No filme, quis mostrar como a vulnerabilidade se mistura com a performance: as personagens precisam se proteger, mas também expressam seus desejos e sua força. Essa tensão entre exposição e autonomia diante de relações desiguais de poder. Nesse caso, o palácio de Sherazade é o set de filmagem.
O filme tem sequências longas e uma câmera indiscreta, que revela as situações se desenrolando praticamente em tempo real. Como foi o processo de direção do elenco para conseguir captar esse ar de “vida real”?
MA: Quis que o filme parecesse autêntico, como uma audição real, por isso optei por longas tomadas e atrizes desconhecidas. A maioria delas eram amigas minhas e do meu marido, que interpreta o diretor. Escrevi o roteiro pensando nelas, mas criei personagens diferentes, com nomes, histórias e contextos próprios, justamente para que elas não se expusessem como pessoas. Isso exigiu muito cuidado: a prioridade era a segurança emocional. E permiti que improvisassem e reagissem naturalmente, sempre observando seus limites, para que as respostas surgissem da própria experiência da personagem. Essa abordagem intensa tornou o filme realista e visceral, equilibrando autenticidade e responsabilidade.

MA: O cinema iraniano é conhecido pela metalinguagem e uma abordagem em que a câmera funciona como os olhos do espectador. Quais foram as suas principais referências para o longa?
Sou profundamente influenciada pelo cinema iraniano, especialmente Mohsen Makhmalbaf, Abbas Kiarostami, Samira Makhmalbaf. Admiro como eles conseguem criar drama e intensidade com pouquíssimos recursos. Sempre admirei como eles conseguem criar intensidade e emoção usando recursos mínimos, às vezes apenas um espaço simples e atores não-profissionais. O minimalismo e a autenticidade são inspiradores, e me ensinaram que não é preciso um grande orçamento para fazer um filme significativo. Também me influenciei pela maneira como eles estruturam a narrativa, criando suspense e surpresa sem depender das fórmulas de Hollywood.
O uso de um espaço limitado está presente em 1001 Frames, que se passa em apenas uma locação. Além da estética, essa escolha teve a ver com questões de orçamento? Como foi o processo de gravação?
MA: Rodar no Irã foi intenso e cheio de desafios, mas também de solidariedade incrível. Não tínhamos dinheiro nenhum, um amigo nos emprestou o estúdio, que tinha peças de cenário de outros trabalhos, e ajudou a conseguir equipamentos de câmera, às vezes sem cobrar. Toda a equipe funcionou como uma comunidade: todos colaboraram, improvisaram e se adaptaram às limitações. Ao mesmo tempo, precisávamos garantir a segurança do elenco e da equipe, planejando cuidadosamente cada passo. Foi um processo intenso, mas também muito humano, que mostrou como a paixão pelo cinema pode superar dificuldades financeiras e logísticas.

1001 Frames teve sua estreia mundial na mostra Panorama no Festival de Berlim, em fevereiro. Como foi a recepção? Há previsão de exibi-lo no Irã?
MA: Ouvi de distribuidores que o filme não era iraniano o suficiente, mas isso nunca me preocupou: a história é profundamente iraniana, mas também global. Durante as filmagens, deixei que as atrizes decidissem como queriam se vestir, e algumas optaram por não usar hijab. Essa liberdade incomodou, disseram que o filme não refletia o Irã “real”. Mas minha intenção era mostrar mulheres conscientes, fortes e resilientes, que sabem navegar regras e restrições de forma estratégica. O hijab é parte da discussão sobre poder, liberdade e representação feminina. Mas isso significa que não podemos exibir o filme no Irã, de maneira oficial, então talvez ele passe, no próximo mês, em festivais underground, de forma restrita.
A questão do uso do hijab e a autonomia da mulher no Irã são assuntos bem discutidos atualmente. Quais são, na sua opinião, as principais problemáticas quando o tema é abordado, em âmbito global?
MA: Muitas vezes, a percepção ocidental reduz a mulher iraniana à vítima, focando apenas na repressão, regras de vestimenta e sofrimento, sem levar em conta sua inteligência, autonomia e iniciativa. Isso me incomoda, porque ignora o protagonismo delas, sua capacidade de tomar decisões, lutar pelos direitos e agir estrategicamente. No filme, quis mostrar mulheres que desafiam regras e têm voz na sociedade. Por exemplo, nas universidades iranianas cerca de 60% dos alunos são mulheres: elas estudam, acompanham notícias, se envolvem com política e cultura. A geração Z ultrapassa todos esses estereótipos. Mostrar isso é convidar o público a perceber a complexidade dessas mulheres, sem reduzi-las à opressão que sofrem.
Por fim, o que você espera que o público possa levar como mensagem do filme?
MA: Espero que o público, homens e mulheres, perceba diferentes formas de abuso de poder. Quero que se conectem emocionalmente e sejam convidados a refletir sobre integridade, empatia e justiça. Histórias de resistência e sobrevivência transcendem culturas e lugares, e a reflexão sobre poder, abuso e humanidade é necessária para todos, independentemente do gênero.

Saiba onde assistir 1001 Frames no Festival do Rio
Sessões:
Teça, 07/10 | 21h15 | Estação NET Rio 4
Quarta, 08/10 | 16h | CineCarioca José Wilker 2
