A duas semanas do desfecho eleitoral, a agenda de enfrentamento ao aquecimento global divide radicalmente os dois principais palcos políticos do país. Uma análise detalhada dos planos de governo submetidos ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), cruzada com o histórico de atuação de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), revela abordagens opostas: enquanto um tenta posicionar a transição climática como espinha dorsal do Estado, o outro restringe o Meio Ambiente a uma ótica de mercado e gestão de desastres.
A disparidade começa na própria redação das propostas. Conforme levantamento realizado pelo Observatório do Clima, os termos “clima” ou “mudança climática” aparecem 38 vezes no texto programático de Lula, figurando apenas uma vez nas diretrizes de Flávio Bolsonaro. A divergência não é meramente estatística; reflete visões conflitantes sobre a ciência e o papel do Brasil na geopolítica ambiental.
Lula: O clima como eixo estruturante e o desafio fóssil

No programa de governo de Lula, o enfrentamento à crise climática é apresentado como um eixo transversal, que dialoga diretamente com o Plano Clima lançado por sua gestão. O petista foca em estratégias estruturadas de mitigação e adaptação climática, com destaque para:
- Infraestrutura Resiliente: Propostas de obras urbanas sustentáveis, contenção de encostas, macrodrenagem e blindagem de mananciais nas cidades contra enchentes e secas severas.
- Metas e Conservação: Compromisso com o desmatamento líquido zero até 2030, alinhamento às metas do Acordo de Paris e a inclusão da Caatinga como bioma estratégico para sequestro de carbono.
- Social e Transição Justa: Integração da rede de assistência social (SUAS) para amparar populações vulneráveis afetadas por desastres climáticos.
Histórico e Contradições: O argumento governista sustenta-se na forte redução de cerca de 50% nos índices de desmatamento da Amazônia obtida a partir de 2023, sob a liderança da ministra Marina Silva. A despeito dos avanços na fiscalização e da retomada do Fundo Amazônia, a plataforma de Lula enfrenta críticas do próprio eleitorado ecológico por manter a defesa da exploração estratégica de combustíveis fósseis na Margem Equatorial, expondo um paradoxo na transição energética prometida.
Flávio Bolsonaro: “Preservar é produzir”

O senador Flávio Bolsonaro apresenta um plano estruturado no lema “preservar e produzir”. A candidatura do PL desvincula o Meio Ambiente de restrições globais, focando no potencial lucrativo da conservação e em respostas a curto prazo:
- Defesa Civil e Engenharia: Diante da única menção a “eventos climáticos extremos”, o plano foca no fortalecimento dos sistemas de alerta da Defesa Civil e em obras físicas clássicas, como barragens de uso múltiplo, canais e bacias de contenção de cheias.
- Mecanismos Econômicos: Tratamento da preservação como ativo estratégico, focando na regulação do mercado de carbono, incentivos à bioeconomia e pagamento por serviços ambientais (PSA).
- Metas Florestais: O texto estipula o fim do desmatamento ilegal até 2029.
Histórico e Contradições: Em entrevistas recentes, o candidato sustentou que, embora reconheça a ocorrência de episódios extremos de seca ou chuva, estes seriam decorrentes de “efeitos cíclicos naturais” e não diretamente ligados à ação humana — indo na contramão do consenso científico global. Aliados e ambientalistas relembram a gestão de seu pai, Jair Bolsonaro, marcada pelo desmantelamento de órgãos de controle e forte alta nas taxas de desmatamento sob a gestão do ex-ministro Ricardo Salles. A proximidade de sua base com o setor mais radical do agronegócio e propostas de flexibilização de terras públicas geram ceticismo sobre a viabilidade de suas metas de preservação.
O Contraste das Propostas
| Critério | Luiz Inácio Lula da Silva (PT) | Flávio Bolsonaro (PL) |
|---|---|---|
| Frequência no Plano | Citado 38 vezes. | Citado 1 vez. |
| Meta de Desmatamento | Líquido zero até 2030. | Ilegal zero até 2029. |
| Visão Central | Emergência climática e transição justa. | Ativo econômico e ciclos naturais. |
| Estratégia de Adaptação | Infraestrutura verde, proteção de mananciais e apoio social. | Engenharia tradicional (barragens/canais) e Defesa Civil. |
O eleitorado brasileiro depara-se com caminhos radicalmente distintos: de um lado, um modelo de inserção internacional balizado por metas climáticas rigorosas versus um outro projeto que privilegia a desregulamentação interna com ênfase na produção do agronegócio. No próximo dia 25 de outubro, eleitores brasileiros voltam às urnas para escolher o presidente da República e o programa que orientará o combate às mudanças climáticas, a proteção e o bem-estar das populações urbanas, das florestas e da vida silvestre do Brasil.
