O filósofo lituano Emmanuel Lévinas ocupa uma posição singular na filosofia do século XX porque sua reflexão sobre a ética nasce sob a marca de uma experiência histórica na qual a própria ideia de humanidade foi radicalmente posta em questão. Nascido em 1906, na Lituânia, formado pela tradição judaica e pela filosofia europeia, Lévinas viveu a ascensão do nazismo, foi capturado em 1940 e permaneceu prisioneiro em um campo de trabalho para oficiais franceses. Sua família lituana foi assassinada durante a guerra, enquanto sua esposa e sua filha sobreviveram escondidas na França. Sua obra De l’existence à l’existant, iniciada durante o cativeiro, e os textos posteriores são construídos a partir da memória desse mundo destruído.
Esse contexto não transforma automaticamente sua filosofia em uma filosofia “sobre o Holocausto”. A questão é mais radical: como pensar a relação com o outro depois de uma experiência histórica em que seres humanos foram reduzidos a categorias, números e corpos elimináveis? Lévinas desloca, então, o centro da Filosofia da ontologia para a ética. A relação fundamental não começa com um sujeito que conhece um objeto, mas com o encontro com outro sujeito que não pode ser inteiramente assimilado pelo conhecimento. O rosto não designa simplesmente uma face visível; é a manifestação de uma alteridade que interrompe a soberania do eu e o coloca sob uma responsabilidade que não resulta de uma decisão racional prévia.
É nesse ponto que a Literatura Russa adquire importância particular para Lévinas. Temas como responsabilidade, culpa, assimetria da relação intersubjetiva e responsabilidade pelo outro encontram na Literatura Russa uma das suas condições intelectuais de elaboração.
Dostoiévski fornece uma forma impactante para se pensar aquilo que o conceito ético procura formular. Em Os irmãos Karamázov, a responsabilidade não aparece como uma regra universal aplicada indistintamente aos indivíduos. Ela surge como acusação, dívida, culpa e obrigação diante de alguém concreto. A célebre formulação de que cada um é responsável por todos não funciona, na leitura levinasiana, como princípio jurídico: ela desloca a subjetividade de sua posição de autonomia para uma relação de responsabilidade que a precede. A Literatura permite que essa estrutura seja experimentada narrativamente antes de ser reconstruída filosoficamente.
A importância da Literatura para o pensamento de Lévinas, portanto, não reside em oferecer exemplos de uma ética já constituída. A narrativa fornece situações nas quais a alteridade pode aparecer sem ser imediatamente reduzida a uma categoria. A culpa de Ivan Karamázov, a responsabilidade de personagens que não escolheram livremente sua obrigação ou a presença de alguém vulnerável produzem configurações que tornam sensível uma assimetria que a Filosofia depois conceitualiza. O argumento filosófico encontra no texto literário não uma demonstração, mas uma experiência concreta de seu próprio problema.
Essa relação também explica uma tensão importante no pensamento de Lévinas: uma espécie de desconfiança em relação à arte. Se a Literatura pode contribuir para a formação de sua filosofia, isso não significa que toda experiência estética seja, para ele, eticamente privilegiada. A obra de arte pode produzir fascinação e encerramento na imagem, enquanto a ética exige abertura ao outro. A Literatura interessa, nesse sentido, não simplesmente enquanto arte, mas quando sua linguagem consegue colocar em movimento uma questão que excede a representação. Há aqui uma tensão produtiva entre a linguagem literária e a linguagem ética.
Essa tensão torna-se ainda mais significativa quando se considera que, segundo pesquisas sobre seu espólio, Lévinas chegou a escrever fragmentos substanciais de dois romances, Éros e La Dame de chez Wepler, ambos relacionados à experiência da Segunda Guerra Mundial. Aquele que filosoficamente desconfiava das mistificações da arte também experimentou a escrita ficcional como possibilidade de elaboração da guerra.
A Literatura participa da experiência filosófica em Lévinas por uma via distinta daquela em que um romance simplesmente “ilustra” uma teoria. Ela oferece uma linguagem capaz de colocar o sujeito diante de uma responsabilidade que não nasce da autonomia do eu, mas da irrupção de uma alteridade que o antecede. O romance não resolve o problema ético; conserva-o em uma situação, em uma voz, em uma relação entre personagens. É justamente essa resistência à redução conceitual que permite à literatura participar da construção de uma filosofia na qual a pergunta fundamental deixa de ser apenas “o que é o ser?” e passa a ser: o que significa responder por alguém que não pode ser reduzido àquilo que se sabe sobre ele?
- Wigvan Pereira dos Santos é filósofo (UFG), mestre em Estudos Comparados (USP), doutor em Ciências da Literatura e Modernidades Comparadas (Uminho), professor de Metodologia e Orientação Monográfica e autor do livro “O metafísico, o real e o sexo: ensaios sobre as literaturas de Goiás e Cabo Verde”
