Uma animação sem uma única linha de diálogo, sobre uma semente de mamão que sonha em voar, conseguiu o que meses de diplomacia cultural às vezes não conseguem: encher salas de cinema do outro lado do mundo. “Papaya”, de Priscilla Kellen — primeiro longa de animação brasileiro selecionado para o Festival de Berlim — foi um dos nove filmes exibidos na Mostra de Cinema Brasileiro em Xangai, e um dos que melhor ilustra por que a iniciativa precisou se reinventar no meio do caminho: prevista para 18 sessões, a mostra encerrou com 52 exibições, quase o triplo do planejado, depois que o público chinês simplesmente não parou de aparecer.
De ação diplomática a fenômeno de bilheteria
Integrada ao 28º Festival Internacional de Cinema de Xangai (SIFF) e às comemorações do Ano Cultural Brasil-China 2026, a mostra nasceu como uma iniciativa de política cultural — o tipo de ação que costuma ter plateia cativa de convidados e pouca repercussão além do circuito diplomático. Não foi o que aconteceu. Segundo Paulo Feitosa, idealizador do projeto e diretor do Instituto Ibero Culturas, as sessões chegaram a reunir centenas de espectadores por exibição — número que, segundo ele, sinaliza algo mais amplo do que curiosidade pontual. “Isso é um sinal de que, de fato, o público tem interesse na nossa produção cinematográfica, e de nos conhecer acima de tudo”, afirmou Feitosa ao Papo de Cinema.

A curadoria reuniu nove títulos que iam do inédito ao clássico consagrado: ao lado de “Papaya”, a mostra levou a Xangai “Coração das Trevas” (Rogério Nunes), vencedor de Melhor Direção no Festival do Rio; “Para Vigo Me Voy!” (Lírio Ferreira e Karen Harley), documentário sobre a trajetória do cineasta Cacá Diegues, um dos fundadores do Cinema Novo; e o clássico “A Hora da Estrela” (1985), de Suzana Amaral. Completavam a seleção “Amadeo e o Hipotético Mundo Novo” (Brenda Lígia e Edu Felistoque), “Feito Pipa” (Allan Deberton), “A Fabulosa Máquina do Tempo” (Eliza Capai), “O Deserto de Luiza” (Alan Minas) e “A Herança de Narcisa” (Clarissa Appelt e Daniel Dias).
O que atravessa fronteiras — e o que exige explicação
A distância entre “Papaya” e “Coração das Trevas” ajuda a entender por que a recepção em Xangai interessa além do resultado de bilheteria. São dois filmes deliberadamente opostos em estratégia de tradução cultural. “Papaya” foi escolhido, segundo a curadoria, por representar a diversidade do cinema brasileiro atual — e o fez apostando na ausência de diálogo e num tema universal, o de uma pequena semente que tenta se libertar das próprias raízes. Para Priscilla Kellen, o resultado confirmou uma aposta sobre a linguagem do cinema em si: “Os comentários emocionados e as observações do público chinês sobre o tema do filme e a trama da personagem me pareceram muito próximas da nossa visão. Isso me fez pensar o quanto algumas histórias são universais e como a arte tem esse poder de nos conectar para além da língua.”
Já “Coração das Trevas” seguiu o caminho oposto: um thriller policial ambientado num Rio de Janeiro de futuro próximo, marcado por elementos “muito típicos da cultura brasileira e, em especial, da cultura afro-brasileira, como elementos do Candomblé e da Umbanda”, segundo o diretor Rogério Nunes. Não é um filme que se apoia em universalidade temática para atravessar a barreira cultural — pelo contrário, pede do espectador estrangeiro algum esforço de tradução simbólica. Ainda assim, segundo Nunes, “os espectadores entenderam muito bem tais elementos e a relação dos personagens com esse universo fantástico particular da cultura brasileira”. Se a leitura do diretor se confirma de forma mais ampla, o dado sugere algo que vai além do sucesso de um filme específico: talvez a curiosidade do público chinês pelo Brasil não dependa de que o cinema brasileiro se torne mais “universal” ou menos “local” para ser bem recebido.

A mesma disposição foi descrita por Diogo Santos, produtor de “Para Vigo Me Voy!” — documentário também exibido na seleção Cannes Classics —, ao relatar o clima das sessões em Xangai: “Foi muito emocionante ver um filme sobre a nossa cultura ser exibido do outro lado do planeta e, além disso, ver o cinema cheio e o público interessado”, disse, descrevendo entre os espectadores chineses uma “disponibilidade e curiosidade em tentar conhecer e entender o Brasil”.
Uma engrenagem de Estado por trás da tela
Nada nessa mostra aconteceu por acaso ou por conta própria. A iniciativa é uma realização do Ministério da Cultura em parceria com o Ministério das Relações Exteriores, o Ministério do Turismo, a Funarte, a Embratur, o Sebrae, o Instituto Guimarães Rosa, o Consulado-Geral do Brasil em Xangai e a Embaixada do Brasil em Pequim, com patrocínio do BNDES, da Petrobras e da Caixa Econômica Federal, produção executiva da Quitanda Soluções Criativas e do Instituto Ibero Culturas, e cooperação da UNESCO — um aparato diplomático e institucional de porte pouco comum para uma mostra de cinema, o que ajuda a explicar por que o resultado surpreendeu até seus próprios organizadores: quando a estrutura de Estado funciona como esperado, mas o público reage acima do previsto, o sucesso deixa de ser só de bilheteria e passa a validar a aposta política por trás do investimento.
Fica em aberto, por ora, se a fórmula — mesclar clássico consagrado, animação premiada e gênero mais autoral — se sustentará em outras edições, ou se Xangai em 2026 foi, além de uma vitrine bem-sucedida do audiovisual brasileiro, também um pouco de sorte de calendário: a curiosidade de um público chinês que, naquele momento específico, decidiu que queria conhecer o Brasil pela tela.
