Um conjunto de mais de 470 obras — pinturas, fotografias, vídeos — que registra seis décadas de funk nas periferias brasileiras deveria seguir em cartaz no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, até agosto. Ficou apenas até 31 de maio. A mostra “Funk: Um Grito de Ousadia e Liberdade” foi encerrada com quase dois meses de antecedência depois que o deputado estadual Tenente Coimbra (PL-SP) acionou o Ministério Público de São Paulo alegando que a exposição continha conteúdo de “narcocultura”. Agora, esse mesmo acervo ganha nova casa: será remontado integralmente na Festa Literária Pirata das Editoras Independentes (Flipei), que ocupa São Paulo de 5 a 9 de agosto.
A trajetória da mostra concentra, em miniatura, uma tensão que atravessa boa parte da programação da Flipei deste ano — entre produção cultural e o escrutínio político sobre o que pode ou não ocupar espaços públicos.
Um festival que nasceu como contraponto
Criada em 2018 como uma espécie de feira paralela à Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), a Flipei se define, em seu próprio site, como um “território de resistência cultural” que se consolidou ao ponto de ser chamada por seus organizadores de “terror da extrema direita” — uma autoimagem que, goste-se dela ou não, se sustenta em números: a edição de 2025 reuniu mais de 50 mil visitantes e mais de 180 expositores entre editoras, autores e livreiros, segundo dados da própria organização. Para 2026, a festa foi contemplada pelo PROAC (Programa de Ação Cultural do governo de São Paulo) e chega à sua oitava edição gratuita, com programação em pelo menos três endereços da capital paulista — Galpão Elza Soares, Café Colombiano e o bar Sol y Sombra.
O rótulo “pirata” não é acidental. A festa nasceu para ocupar espaços de forma descentralizada e, na prática, aprendeu a se reorganizar sob pressão: em 2025, a Fundação Theatro Municipal de São Paulo, vinculada à gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), cancelou unilateralmente o contrato que autorizava o uso da Praça das Artes para o evento, dias antes de sua realização, alegando “viés político-ideológico”. A organização da Flipei classificou a decisão como censura e chegou a apontar a atuação de um “lobby sionista” nos bastidores — associando o cancelamento a críticas que o historiador israelense Ilan Pappe, crítico da política do Estado de Israel e presença anunciada na Flipei daquele ano, vinha recebendo de grupos pró-Israel em outros eventos literários no mesmo período. A Prefeitura negou censura e afirmou, em nota, que o evento tinha “conteúdo exclusivamente de apelo ideológico, com viés eleitoral”, ainda que não houvesse eleição em 2025. Vereadores como Nabil Bonduki (PT) classificaram o cancelamento como “inadmissível em uma democracia”. Não há, nas fontes públicas disponíveis, confirmação independente da existência de uma articulação coordenada de grupos pró-Israel contra a Flipei especificamente — trata-se de uma leitura dos próprios organizadores do evento, contestada pela Prefeitura. Para 2026, a festa mantém os mesmos endereços alternativos adotados na reorganização emergencial do ano anterior.
A disputa por quem decide o que é arte
Já o caso da exposição sobre funk tem contornos distintos. Depois da denúncia do deputado Tenente Coimbra, o Ministério Público de São Paulo abriu procedimento para apurar o cumprimento de normas de proteção a crianças e adolescentes e de classificação indicativa — e fez questão de esclarecer, em nota, que o procedimento “não envolve juízo artístico, curatorial, político ou cultural sobre a exposição”. O Museu da Língua Portuguesa, por sua vez, afirmou que o encerramento antecipado se deu para abrir espaço a duas novas mostras já programadas para este ano, e que “Funk” permaneceu em cartaz por seis meses — tempo que a instituição considera dentro da média de suas exposições temporárias. A curadora Renata Prado discorda frontalmente dessa versão: “É preciso nomear o que está acontecendo. É censura”, escreveu, afirmando que a mostra sofreu “um ataque sistemático” sem que os responsáveis pelo museu dialogassem com a equipe curatorial antes da decisão.
As duas versões — a de uma decisão de calendário e a de uma capitulação política diante de pressão parlamentar — não podem ser conciliadas apenas com os dados públicos disponíveis até aqui. O que é fato é que a decisão de encerramento coincidiu, no tempo, com a repercussão pública da denúncia do deputado, e é essa coincidência que a Flipei aposta em capitalizar ao acolher o acervo remanescente em sua programação.
Literatura, mas também tatame e mesa de pebolim
A edição 2026 amplia o escopo da festa para além dos debates literários e políticos que tradicionalmente compõem sua grade — que este ano inclui mesas sobre a guerra em Gaza, tarifa zero, psicoativos e saúde mental, feminismo, violência racial e inteligência artificial, entre outros temas. A novidade é a entrada do esporte como o que os organizadores chamam de “ferramenta de ação social e cuidado coletivo“: um campeonato de pebolim, em referência à origem do jogo entre milicianos anarquistas durante a Guerra Civil Espanhola, e uma atração de boxe popular, apresentada pela curadoria como metáfora de autodefesa física e mental “diante do avanço do conservadorismo”.
O dado concreto é que, a partir de 5 de agosto, o público paulistano poderá ver de perto o acervo que um museu público decidiu — por motivos que seguem sendo contados de forma diferente por cada lado — não manter em cartaz até o fim.
