O Brasil registrou a queima de 12,7 milhões de hectares em seu território, uma redução de 58% em comparação com o total mapeado no ano anterior. Os dados constam na 5ª Coleção do MapBiomas Fogo, coordenada por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM). O balanço aponta que a área atingida ficou 31% abaixo da média histórica anual do país, estabelecendo o menor índice de focos de calor desde 2018. O relatório divulgado pelo IPAM será usado como evdência pelo governo brasileiro para questionar nova tarifa de 25% sobre produtos nacionais.
Comportamento climático e acúmulo de biomassa
A retração no volume de incêndios é atribuída ao encerramento dos efeitos severos do fenômeno El Niño e à retomada de regimes regulares de precipitação, que elevaram a umidade interna das florestas. Cientistas alertam, contudo, que a trégua climática impulsionou o crescimento da cobertura vegetal recente. “Esse cenário serve de alerta, pois caso ocorram novos períodos de estiagem combinados com o uso indiscriminado do fogo, essa vegetação acumulada funcionará como combustível altamente inflamável”, explica Vera Arruda, pesquisadora do IPAM.
Dinâmicas regionais no Cerrado e na Amazônia
O Cerrado permaneceu como o bioma mais afetado em extensão, concentrando 8,7 milhões de hectares queimados — uma queda de 20% frente ao período anterior. Desse montante, 87% atingiram vegetação nativa, sobretudo formações savânicas. Já na Amazônia, a área queimada recuou 80%, somando 3,1 milhões de hectares, o menor patamar da série histórica. Ao contrário do Cerrado, 52% do fogo em solo amazônico concentrou-se em áreas de atividade humana (antrópicas), com pastagens respondendo isoladamente por 35% das ocorrências.
Balanço nos demais biomas e reincidência
O Pantanal registrou o menor índice de sua série histórica, com 121 mil hectares atingidos. A Mata Atlântica reduziu a queima em 77%, enquanto o Pampa apresentou alta de 115%, fixando-se em dez mil hectares. A Caatinga figurou como o único bioma a superar a tendência histórica regional, com alta de 5% e 504 mil hectares afetados. Historicamente, 72% dos registros de fogo no país concentram-se no trimestre entre agosto e outubro, tendo setembro como o mês de pico, com média anual de seis milhões de hectares.
Queimadas x Tarifaço
O governo dos Estados Unidos confirmou a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre diversos produtos exportados pelo Brasil. A medida foi oficializada pelo presidente Donald Trump após uma investigação do USTR (Escritório do Representante Comercial dos EUA), que alegou que o Brasil permite o desmatamento ilegal para conceder vantagens injustas aos seus produtores.
O governo brasileiro classificou as acusações como “infundadas” e “absurdas”. O presidente Lula criticou a medida, destacando que os EUA usam a questão ambiental como desculpa para impor barreiras comerciais e proteger o mercado interno. Estima-se que cerca de 3.000 produtos brasileiros sejam afetados, gerando um impacto de 11 bilhões de dólares nas exportações, o que coloca o Brasil como o segundo país mais tarifado pelos EUA, atrás apenas da China.
Especialistas e representantes do setor climático apontam que, na prática, a justificativa ambiental serve como manobra para aplicar tarifas políticas e protecionistas, uma vez que o Brasil registrou quedas consecutivas nas taxas de desmatamento nos últimos anos.
O Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) e integrantes do alto escalão do governo federal estão rebatendo publicamente a versão da Casa Branca e do Secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio.
A estratégia diplomática brasileira está estruturada em três frentes principais:
1. Desmonte da justificativa técnica
Diplomatas brasileiros afirmam que a insistência dos EUA em dados ambientais negativos demonstra que Washington está agindo com base em “dados falsos” ou desatualizados. O Itamaraty destaca formalmente que o desmatamento na Amazônia foi reduzido praticamente à metade entre 2022 e 2025. A comprovação de que as queimadas recuaram 58% em 2025 (segundo o MapBiomas) serve como evidência estatística de que o Brasil cumpriu as metas de fiscalização e proteção.
2. Denúncia de “Politização Evidente”
A diplomacia brasileira argumenta que a restrição tarifária de 25% tem motivação puramente comercial, seletiva e protecionista. O governo enfatiza que o governo de Donald Trump usa a pauta do desmatamento como pretexto político para criar vantagens de mercado para os agricultores norte-americanos. O argumento diplomático é reforçado pelo fato de que outros países com sérios problemas de desmatamento não receberam sanções semelhantes.
3. Aliança com empresas norte-americanas
Em documento oficial de 29 páginas enviado diretamente ao Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR), o Itamaraty listou pelo menos 43 grandes empresas e associações comerciais dos próprios Estados Unidos que são contra a taxação. O Brasil usa esses dados de recuperação ambiental para provar que a sanção é descabida, unindo forças com corporações americanas que temem o encarecimento de matérias-primas e o aumento de custos para os seus próprios consumidores locais.
