Depois de conquistar os prêmios de Melhor Filme da competição Olhos Livres e do Júri Popular na Mostra de Cinema de Tiradentes, além do prêmio de Apoio à Distribuição no FID Marseille, o documentário “Anistia 79”, novo longa-metragem da cineasta Anita Leandro, estreia nas salas de cinema do país em 20 de agosto de 2026. A obra audiovisual, distribuída pela Embaúba Filmes, utiliza registros históricos gravados em filme de 16mm durante a Conferência Internacional pela Anistia e as Liberdades Democráticas no Brasil, realizada na plenária do Senado Italiano, em Roma, em junho de 1979. Esses registros históricos do processo de anistia, de grande atualidade, convidam o espectador a julgar os crimes do passado e a elaborar uma memória da ditadura militar.
Descoberta do arquivo e processo de produção
O material de arquivo que serve de base para o documentário foi registrado originalmente de forma independente por Hamilton Lopes dos Santos, exilado brasileiro na Europa. “Não se trata de um filme temático sobre anistia”, diz a diretora, “mas de um filme sobre a emoção de 11 pessoas que viveram esse processo, diante de imagens de arquivo onde elas aparecem”. Esses registros nos transportam para a plenária do Senado Italiano, que sediou a Conferência Internacional pela Anistia e as Liberdades Democráticas no Brasil, evento que reuniu centenas de exilados brasileiros e defensores de direitos humanos de diversos países, engajados na luta pela anistia e pelo fim da ditadura.

Essas imagens ficaram guardadas num porão, em Paris, por quase meio século, até que Anita Leandro encontrasse uma cópia do material em cassetes mini-DVs, sem som, em uma biblioteca da Universidade de Nanterre, nos arredores de Paris, especializada em questões políticas da América Latina.
Depoimentos e conexões temáticas

Entre os personagens centrais da produção está Denise Crispim, ex-exilada e viúva do militante Eduardo Leite, conhecido como “Bacuri”, morto por agentes do Estado em 1970 no Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) de São Paulo. O filme apresenta o depoimento de Denise no Tribunal Bertrand Russell II, em 1974, além de sua participação na conferência de Roma ao lado de sua filha, Eduarda. A obra dialoga com o filme anterior da diretora, “Retratos de Identificação” (2014).
“Assistindo àquelas imagens mal digitalizadas, reconheci personagens importantes da resistência à ditadura militar”, conta a diretora. “A bibliotecária me colocou, então, em contato com Hamilton Lopes dos Santos, o autor do material de arquivo”.
Exilado em Paris, durante a ditadura, Hamilton alugou uma câmera, reuniu uma pequena equipe e partiu para Roma, sem dinheiro e sem experiência em cinema, movido apenas pela vontade de deixar um registro do evento para as gerações futuras. Durante três dias, ele filmou a Conferência Internacional pela Anistia. São quase duas horas de material, rodado em 16mm, preto e branco, com um som cristalino, que oferece ao momento presente um balanço emocionante de uma história de muita luta.
Circuito de festivais e contexto da lei
Antes do lançamento comercial, “Anistia 79” conquistou os prêmios de Melhor Filme da mostra Olhos Livres e do Júri Popular na Mostra de Cinema de Tiradentes. No cenário internacional, recebeu o Prêmio de Apoio à Distribuição no festival FIDMarseille, na França. A estreia nos cinemas ocorre no mês em que a Lei da Anistia (Lei nº 6.683), sancionada em 28 de agosto de 1979 pelo general João Figueiredo, último ditador do regime militar, completa 47 anos de vigência no Brasil.
