Um ano após inaugurar uma sala de cinema permanente dentro de uma de suas ocupações, o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) dá um novo passo para romper o cerco da exclusão cultural. Neste sábado (30), o movimento lança oficialmente o projeto Cinema Sem-Teto itinerante, uma iniciativa que vai circular pelas periferias de São Paulo levando telas infláveis, projeção audiovisual de alta qualidade e pipoca gratuita para a população.

A proposta surge como um confronto direto à lógica de mercado que privatizou o acesso à cultura no Brasil. “Enquanto o Cinemark dribla a cota de tela, nós vamos levar nosso cinema para quem tem pouca ou nenhuma possibilidade de ir a uma sala convencional”, afirma Natalia Boulos, coordenadora do MTST.
Estreia debate o racismo estrutural através da arquitetura
O evento de lançamento acontece às 18h na Ocupação Elza Soares, na Vila Mariana, com a exibição especial do documentário Aqui não entra luz. Premiado no Festival de Brasília e produzido pelo Apiário Estúdio Criativo em coprodução com a Surreal Hotel Arts, o longa marca a estreia da cineasta Karol Maia na direção de documentários deste porte.
O filme investiga as marcas profundas da escravidão na sociedade brasileira por meio da arquitetura colonialista dos “quartinhos de empregada”. Cruzando pesquisas históricas com memórias pessoais, a obra joga luz sobre a segregação espacial que ainda sustenta hierarquias de classe e raça no país.

“Como filha de uma trabalhadora doméstica, sempre soube o que era ser ‘quase da família’, e como realizadora negra, vinda da periferia, às vezes sinto que me veem como ‘quase do cinema’”, desabafa Karol Maia. “Mas o cinema pode e deve ser feito e visto por todos.”
A barreira da escala 6×1 e a exclusão cultural
Após a exibição do filme, o espaço abrirá alas para um debate político mediado por Natalia Boulos. Entre as convidadas estão Janaína Souza, presidente do Sindicato de Trabalhadoras Domésticas de São Paulo, e a deputada estadual Ediane Maria (PSOL), coordenadora do MTST e primeira trabalhadora doméstica eleita na história da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp).
Ediane, que trabalhou por duas décadas na profissão, aponta que a falta de acesso à arte nas quebradas está diretamente ligada à exploração do tempo da classe trabalhadora. Ela ressalta o impacto massacrante da jornada de trabalho convencional sobre o direito ao lazer.
“Quem trabalha na escala 6×1 não tem nem tempo de ir ao cinema, e quem tem tempo, muitas vezes não tem dinheiro ou cinema perto. Eu mesma cheguei a trabalhar 14 dias para folgar um. O Cinema Sem-Teto itinerante vem para mudar essa realidade”, defende a deputada.
A entrada para a sessão é totalmente gratuita. A organização solicita apenas a doação voluntária de 1 kg de alimento não perecível, que será integralmente destinado à Cozinha Solidária da ocupação, fortalecendo a rede de combate à fome nas comunidades paulistas.

Serviço:
- Evento: Lançamento do Cinema Sem-Teto Itinerante e exibição de Aqui não entra luz
- Data: Sábado, 30 de maio, às 18h
- Local: Ocupação Elza Soares (Rua Gaspar Lourenço, 19 – Vila Mariana, São Paulo/SP)
- Entrada: Grátis (Aceita-se a doação de 1kg de alimento para a Cozinha Solidária)
