Já se passaram 80 anos da morte de Mário de Andrade (1893-1945), mas essas oito décadas ainda não se mostraram suficientes para esgotar as descobertas a respeito do alcance dos seus interesses e da abrangência da sua produção. O mais recente achado trata da preocupação de Mário com os aspectos culturais, históricos e antropológicos da população e da cultura negras do Brasil.
O livro O Losango Negro – Mário de Andrade, Intérprete do Brasil, de Angela Teodoro Grillo, parte de documentos do escritor preservados no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP. Em contato com esse material desde sua iniciação científica, chegando até o pós-doutorado, Angela acabou encontrando um dossiê composto pelo próprio Mário intitulado Preto. Nele, notas de trabalho e versões de textos foram reunidos desde o final dos anos 1920 até a morte do escritor, representando cerca de 20 anos de pesquisas sobre a questão do negro no País.
O ponto de partida dessa análise é o conjunto de documentos Preto, nomeado desse modo pelo próprio Mário de Andrade e descoberto pela autora nos arquivos do IEB-USP em 2007. Esse material, composto sobretudo de notas de trabalho, com leituras e comentários, reunidas entre o fim da década de 1920 e a morte do modernista, em 1945, abrangem aspectos culturais, históricos e antropológicos relacionados à população negra no Brasil. O livro O losango negro inclui parte desse dossiê, além de outros ensaios abordados pela autora, como “Plano para a comemoração do Cinquentenário da Abolição em São Paulo” [1938], “Sugestões para a comemoração do Cinquentenário da Abolição” [1938] e “A expressão musical dos Estados Unidos” [1940].
A análise de Angela Teodoro Grillo abre caminhos para reconsiderarmos Mário de Andrade a partir de aspectos de sua obra que, por muito tempo, foram deixados em segundo plano. A imagem do “losango” — recorrente na obra do intelectual — se torna uma encruzilhada onde diferentes vetores se encontram: um espaço de cruzamento de culturas, consciência da mestiçagem, reconhecimento da violência do racismo e valorização da cultura brasileira.
Destaques:
“A vida negra não fugiu, portanto, às lentes de Mário de Andrade. Cabe perguntar por que, durante tanto tempo, isso não foi devidamente explicitado. Um livro como o de Angela nos ajuda a descobrir as razões.” Mário Augusto Medeiros, sociólogo e Professor Livre-Docente da Universidade Estadual de Campinas, Unicamp
“Este livro, ansiosamente aguardado, revela como são infundadas as acusações de que o ‘bardo mestiço’ dissimulava sua cor e suas origens, herdadas de suas avós negras.” Ligia Fonseca Ferreira, Professora Associada do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)
“Se Exu iconiza a complexidade da nossa formação cultural — ele é a própria semiose, como nos ensina Leda Maria Martins —, permanentemente em processo, Mário Raul de Morais Andrade é o nome do homem-signo que nos desafia a ler o signo Brasil como uma pergunta em aberto: difícil, interrompida, mil vezes reperguntada.” Ricardo Aleixo, poeta, artista e pesquisador das poéticas intermídia
Trechos
“Os ecos ainda tradicionais da campanha abolicionista, a consequente libertação dos escravos, […] seriam provas concludentes de que no Brasil não existe linha de cor. Mas se formos auscultar a pulsação mais íntima da nossa vida social e familiar, encontraremos entre nós uma linha de cor bastante nítida, embora o preconceito não atinja nunca, entre nós, as vilanias sociais que pratica nas terras de influência inglesa. Mas, sem essa vilania, me parece indiscutível que o branco no Brasil concebe o negro como um ser inferior.” Mário de Andrade, no texto “Linha de cor” (1939), presente em O losango negro
“Ao focalizar a lírica, procuro organizar e mensurar os estudos da cultura negra e das relações raciais no pensamento de polímato e, ao fim e ao cabo, na compreensão mariodeandradiana do Brasil. O escritor, ao longo da vida, alcança o entendimento de complexidades sociais de um país que tradicionalmente camufla violências do preconceito racial e do racismo sistêmico. Mário de Andrade poeta denuncia problemas coletivos e individuais, de classe e de cor; além disso, o negro, como alteridade por ele observada, surge também na esfera da arte e do amor, enquanto felicidade, beleza e completude, oferecendo ao leitor múltiplas possibilidades de existência da população negra brasileira, na contramão de estereótipos que encarceram.” Angela Teodoro Grillo
Sobre a autora
Angela Teodoro Grillo nasceu em São Paulo e vive em Belém do Pará. É bacharela e licenciada em Letras — Português/Francês —, mestra e doutora em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), com tese indicada ao Prêmio Capes 2015. Realizou estágio de pós-doutorado no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP) e, desde a iniciação científica, sob orientação de Telê Ancona Lopez, dedicou-se ao estudo dos arquivos de Mário de Andrade, tornando-se especialista em sua obra. Publicou Sambas insonhados: O negro na perspectiva de Mário de Andrade (2016). Atualmente, é professora de Literatura na Universidade Federal do Pará (UFPA), em Belém, onde coordena o grupo de pesquisa Mil Marias (ILC/UFPA/CNPq), que mantém vínculos com propostas teóricas e metodológicas de Mário de Andrade para refletir sobre a cultura e a literatura brasileiras.
Sobre a coleção
A coleção Encruzilhada pretende construir um panorama de títulos de autores nacionais e estrangeiros que abarcam temas contemporâneos, como o antirracismo, os feminismos e o pensamento decolonial. Com coordenação de José Fernando Peixoto de Azevedo, doutor em Filosofia e professor da ECA/USP, a coleção apresenta autores que refletem o presente buscando lançar luz sobre como os processos, na medida em que são enfrentados, compreendidos e transformados, mudam a percepção histórica.
- Conteúdo: Jornal da USP e Guia Negro
